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domingo, 3 de julho de 2011
O VASO SANITÁRIO 01
sexta-feira, 1 de julho de 2011
UMA VIAGEM DE CARRO
terça-feira, 21 de junho de 2011
terça-feira, 14 de junho de 2011
UM PEDIDO DE EMPRÉSTIMO
Da casa de minha mãe, em Candeias, para ir ao Supermercado Faria é um sacrifício. A Rua José Hilário da Silva tem uma subidinha terrível. E eu, já com os meus sessenta e oito anos, não tenho tanta disposição para ficar subindo ladeiras. Num passo lento, dá para ir bem. Mas, a passos largos, a gente chega ao ponto final da linha pondo a alma pela boca.
Dizem que, para se encontrar com o diabo, não precisa madrugar e isso é uma verdade. Ontem, por volta das 11 horas, minha mãe me pediu para comprar uma carne para o almoço com a recomendação de não demorar porque a moça que faz a comida “já ia colocar a panela no fogo” em uma forma bem familiar de dizer para não demorar.
Às vezes, eu me encontro com um amigo e me pego no papo sempre deixando alguém a esperar. Evito fazer esse percurso de carro para sair um pouco do sedentarismo que a vida me impõe graças ao uso indiscriminado do controle remoto, do celular, do automóvel e outras facilidades advindas do modernismo.
De tanto a minha mãe falar para não demorar, acabei subindo o morro um pouco apressado o que me levou a chegar ao supermercado cansado.
Como subi apressado, era minha intenção descer, também, apressado. Mas, quando vou descendo, nas imediações da Praça da Fraternidade, vem subindo, por ali, aquela senhora amiga que sempre me azucrina, mas, que sempre me prende no papo. Uma verdadeira peça rara. Um tipo de gente que se dela for um amigo não há nenhuma necessidade de ter um inimigo. Sua vida é um drama que poderia se transformar em uma novela da Rede Globo.
Quando a vi pensei: “Ai, Meu Pai dos Céus, justamente agora!.” Já pude imaginar qual poderia ser o assunto... Uma pessoa que sempre está pondo mãos postas e lamentando a ausência dos seus filhos.
Há dias que me dá uma vontade de lhe perguntar por que não nasceu rica!? Poxa! A mulher só sabe reclamar da vida, da ausência dos filhos! Da chatice do marido! Meu Deus, como tem gente aborrecida, neste mundo!
-- Oi, Sô Armando, lá vai com pressa? O que que foi? Tem alguém morrendo?
--Não. É que eu fui comprar uma carne para o almoço e a panela já está no fogo...
--Ah! Tem dó, Sô Armando, onde já se viu isso... Põe a panela no fogo e sai pra rua.
Homem é bicho burro mesmo.
---Quando disse que a panela está no fogo se trata de uma forma de dizer que estou com pressa, mas, na verdade, não tem nenhuma panela no fogo.
--- Sô Armando, hoje eu ricibi uma carta da minha fia. Ela falou bonito dimais na carta, Sô Armando! O senhor sabe que eu até chorei?
---Mas, o que houve que lhe causou lágrimas?
---A minha fia, Sô Armando, que ganhava dois salários, por mês, agora vai ganhar treis, Sô Armando! Treis salário, Sô Armando, e o senhor já pensou?
---Já! Já pensei. Agora, ela vai lhe mandar um de presente, não vai?
---Tá sorto, Sô Armando! Tá sorto! Quem me dera! ---- Ela é assim: se ganha um, gasta dois; se ganha dois, gasta treis e se ganha treis, gasta quatro. Já está lá, comprando um celular novinho, coisa chique mesmo...
---Mas, você tem que ensiná-la a administrar o dinheiro. Isso é uma questão de ensinamento...
---Que mané ensinamento, Sô Armando! Parece que o senhor nunca criou um fio. Óia, eu ensino dum jeito, eles faz do outro? Eu só ensinei ela a ganhar, mas, ela só aprendeu a gastar... Foi embora e me deixou, aqui, dando a cara à tapa para as dívidas dela. Manicura, cabilerêra, prestação de rôpa. Um fregi de conta pra pagá em cima de mim. E ela num manda nada. E ainda vive pedindo.
---E você dá?
---Uai, mãe é mãe, né, Sô Armando! Mas eu nunca tenho!
---Mãe é boba, você deveria dizer!
---O senhor porque não é mãe.
---E o pai dela!?
--- Que nada. O pai dela num tá nem aí. Cobra dele e ele só fala: A hora que ela chegar aqui, eu mando ela ir lá... E, assim, ele vai enrolando tamém. E, lá em casa, só eu que tenho cara pra crescer, cara para ficar vermelha e cara para cair no chão. Eu já num to agüentando mais. Eu, tamém, tô tendo que enrolar. Eu num tenho como virar dinheiro. O trem é brabo...
---Olha, você me dá licença porque minha mãe está esperando a carne...
---Não, Sô Armando, espera só um pouquinho! Eu estou precisando falar com o senhor e é muito importante para mim.
---Então diga...
---Será que dá para o senhor me emprestar cem reais?
---Parece que nós temos um pequeno acerto antigo, não temos?
---Uai, de quê, Sô Armando?
---Você não se lembra?
---Uai, num lembro não...
---Bom. Então, deixa isso pra lá. Como você ia dizendo?...
---Então, tá bão! Eu queria ver se o senhor me empresta cem reais, por uns dias pouco.
---Eu conheço esse filme. Se eu lhe emprestar, quem vai pagar? Ela ou você?
---Bem, Sô Armando, é ela. Eu não tenho como. E, depois, como o senhor sabe, eu tenho recebido cobrança de dividas dela, desde que foi embora. A menina é discabiciada. Deixou unha, cabelo, farmácia, tudo pra eu pagar e já recebi outras cobranças...
---Olha, eu não tenho esse dinheiro, senão, eu lhe emprestava.
---O quê, Sô Armando?!!! O Sr. num tem cem conto? Engana eu que eu gosto. Deus vai castigar o senhor por falar uma mentira desse tamanho. Se o senhor num quer me emprestar eu até entendo, mas, dizer que num tem. Nossa, Meu Deus! Que pecado! Que coisa feia, Sô Armando, menti assim, tão descaradamente. Eu num vou ficar com raiva do senhor não, mas, tem gente que fica.
--- Olha, eu vou ser franco com você. A gente empresta quando sabe que vai receber. Do jeito que você está falando, eu não vou receber nem no dia de São Nunca.
---Bem, Sô Armando, já que o senhor não tem os cobres, ou num quer emprestar, bem que podia pedir a sua mãe para emprestar para mim...
---Eu! Pedir a minha mãe para emprestar para você?! Tenha a santa paciência.
---É, Sô Armando. O senhor é um amigo igual banheiro intupido: num pode usar quando pricisa. É uma torneira sem água, numa pia cheia de trem sujo. É uma cama sem colchão pra quem tá com sono. É fogão sem fogo pra quem quer conzinhar. Amizade, assim, num adianta, uai!
----Então até logo, outra hora a gente conversa mais...
domingo, 5 de junho de 2011
UMA FERIDA CANDEENSE
---O local era frequentado pelo povo de Campo Belo, que tinha a usina de Candeias como um passeio turístico.
---- Aos domingos, principalmente, carros e caminhões do tipo pau-de-arara, dirigiam-se para aquele local a fim de se banhar e pescar. E como tinha peixe! Lambaris, piabas, cascudos, mandis e muitas outras espécies eram pescados entre aquelas pedras, pois havia ali diversos tanques. O local era também servido ao povo de Campo Belo, principalmente no verão.
---Lembro-me do Zequinha da Donate. Ele era ainda bem criança e nadava feito um peixe, mergulhava-se e saía sempre com um peixe na mão.
---As pessoas assando churrasco, bebendo cerveja e tudo era uma alegria. Acontecia, de quando em vez, uma briguinha que não ia para frente porque a turma do “deixa-disso” logo dava um jeito.
---Na área, existia um chalé onde sediava o Clube dos 21. Eram vinte e um sócios, dos quais me lembro do Luizinho Bonaccorsi, Midinho, Orlando do Melão, e outros.
---O ambiente era saudável e não havia deturpação. Parece-me que naquele tempo as pessoas tinham mais compromisso com a cidadania, com a civilidade o que, infelizmente, tem faltado muito, nos dias atuais.
Pessoas idosas frequentavam em comum àquele local. Pessoas requintadas da nossa sociedade iam ali, se divertiam e voltavam satisfeitas. O povo candeense, se misturava sem preconceitos; era o negro e o branco; o rico e o pobre; o feio e o bonito. ---- A beira do canal da usina, próximo da casa dos usineiros, era gente cantando ao som de violão; assando carne, bebendo cerveja quase quente e tomando cachaça. Que tempo bom meu Deus! Aquilo não poderia ter acabado. Os usineiros sempre emprestava um quarto para as senhoras trocarem de roupa e as suas salas para pessoas idosas.
---Estava sempre presente um vendedor de bebidas ambulante, com cerveja gelada, levada através de um tambor com barras de gelo com serragem. Gelo que era fornecido em barras pela manteigueira.
---Era interessante para as crianças quando ficavam conhecendo o local onde era gerada a energia elétrica que iluminava a cidade. Eu fiquei abismado quando vi, pela primeira vez, as máquinas que produziam a luz que iluminava as nossas casas. Lembro-me, ainda, do meu pai tentando me explicar como era feita esta transformação. Lembro-me da minha curiosidade em saber como transformar água em luz.
---À porta da usina, havia um grande passeio no qual os pescadores, em outros dias, à noite, estendiam os seus lençóis próximos de uma pequena fogueira, debaixo do pé de manga até hoje lá existente. Comiam, bebiam e dormiam. Meu pai era um desses pescadores e sempre se me fazia acompanhá-lo
---A casa com as duas residências dos usineiros e o canal deveriam ter sido aproveitados como um clube campestre municipal.
Sabe-se que em muitas cidades, onde as prefeituras se tornaram proprietárias de usinas que antecederam a Cemig, foram transformadas em pontos turísticos para o povo. A cultura de preservação do patrimônio público estava presente nesses municípios. Privilégio que o povo de Candeias não teve.
---Infelizmente nada foi aproveitado. Até o galpão todo construído de pedra, onde fora instalada as máquinas geradoras, foi aproveitado, tendo sido destruído deixando apenas um rastro da falta de sensibilidade, falta de amor e falta de competência administrativa dos responsáveis de então. Nada foi conservado como herança para as novas gerações.
--Aqui, em Candeias, aquele local onde poderia estar à vista dos nossos jovens um local histórico, está os sinais da destruição desalmada; da irresponsabilidade daqueles que detinham o poder na época dessa transição. Nem o galpão, todo construído de pedra onde foi instalada a usina, mereceu ser preservado. Parece até, que o instinto de destruição dos responsáveis exercera ali o impulso inato da insensibilidade; da falta de respeito com aqueles que teria construído um capítulo importante da história de Candeias.
--- A outra destruição foi na Serra do Senhor Bom Jesus. Ali poderia ter sido reservado para um parque ecológico bem próximo à zona urbana. ----- Candeias tendo diversas pedreiras em seu município poderia as pedreiras da Serra do Senhor Bom Jesus terem sido poupadas da destruição. No entanto os responsáveis pelo município permitiram a destruição de uma área que jamais poderia ter sido agredida pela indústria da pedra. Mas as mazelas dos responsáveis, cuja ignorância exigida para o poder público seria dispensada, permitiu mais esse prejuízo para a história do nosso município.
--Na Serra do Senhor Bom Jesus, os jovens faziam os passeios dominicais, chamados piqueniques. Os namorados se juntavam num grupo, muitas vezes acompanhados pelos pais e levavam os lanches na época chamados de “merenda” ou, até mesmo, de uma refeição leve. Não existiam os rádios à pilha, portanto, para o barulho sonoro era levado um violão. E, debaixo de uma árvore, a turma se reunia, quase sempre, perto de uma grande pedra onde, muitas outras, serviam de mesa e de bancos. A área tinha diversas frutas silvestres como guabiroba, araticum-cagão, marmelada-de-cachorro, araçá e muitas outras, cada uma no seu tempo.
---Meu Deus! Como nós que amamos a terra em que nascemos, precisamos de alguém que cuide bem de nossa tão querida terra Candeias. Alguém que a preserve e a ame de verdade.
---Infelizmente a nossa história está marcada por capítulos tristes, que poderiam ser evitados. É lamentável... Deveras lamentável.
Armando Melo de Castro.
sábado, 4 de junho de 2011
O ESPÍRITA DOIDÃO
Isso aqui é uma casa de Deus.
Pra mim isso aqui num é lugar de cunversa fiada.
E é lugar de silêncio.
Esse povo que fica aí na porta, só falano coisa que não deve, tá errado.
A Bíblia fala que Jesus vai vortá, aqui, um dia desse.
Se Ele chega aqui, agora, cume qui nóis fica com essa farta de respeito?
Assim, o que eu quero aqui é pedir para esses irmão cala o bico porque se Jesus chega aqui, hoje, nóis tá vai tá tudo fudido.
domingo, 8 de maio de 2011
A RAINHA DO COCHICHO
Até há pouco tempo eu ia todos os meses a Candeias para visitar minha
mãe. Apesar da minha residência fora eu sempre me considerei, também um morador
presente em Candeias. Durante anos eu intercalei as minhas ações com Candeias,
consultas médicas rotineiras, conta bancária, o meu título de eleitor, nunca
tomei café que não fosse de Candeias, queijos etc. E mesmo quando morei bem
distante, como em Governador Valadares e São Paulo, nunca pude ser considerado
um ausente.
À bem da verdade eu me considerava ter duas residências. Mesmo
porque eu nunca teria me desligado definitivamente da minha terra mesmo estando
trabalhando por muitos anos fora. Com a minha aposentadoria eu fui, ainda mais
frequente. Uma espécie de ciclo social que teve fim depois de mais de cinquenta
anos, após a recente morte de minha mãe no ano passado.
Portanto, durante esse tempo eu estive por várias vezes no consultório
do Dr. Celso Andrade na Rua Pedro Vieira de Azevedo, fazendo uma consulta
rotineira que faço, uma vez por ano, para ver como está a minha carcaça.
Durante a última visita que fiz numa consulta ao Dr. Celso, o médico me
recomendou fazer algumas caminhadas. Afinal a idade e o sedentarismo me fazem
de certa forma modulado em toucinho e a minha barriga não é que esteja muito
grande, mas está ficando caída para frente, criando um debrum e aquilo é de
incomodar e causar estorvo. A gente aperta o cinto, mas este não se prende no
umbigo. Fica um negócio desarrumado.
E já que caminhar teria sido um conselho médico e caminha trata-se de
uma tarefa que não podemos delega-la como pagar para que alguém a faça por nós,
o recurso é andar. Se tivesse como pagar para andar para mim, eu juro que eu
tiraria da boca para isso. Mas como não tenho como fazer isso, o remédio é
escutar o conselho do médico e pronto.
Assim, naquele momento então, me levantei cedo, às sete horas da manhã,
com o estômago forrado, com um belo pão com manteiga, uma canecada de café com
leite e mais um pedaço de bolo de fubá, zarpei, todo engalanado à moda dos
caminheiros, da minha residência, na Rua Vereador José Hilário da Silva 36.
Dali tomei a Rua Pedro Vieira
de Azevedo rumo à Praça Antônio Furtado, onde tomaria a Rua Professor Portugal,
Amorés e daí, seguindo sempre em busca de uma baixada. O que não estaria, no
meu projeto, seria algum morro. Só baixadinha. Afinal, eu não queria gastar
energia.
Para mim, esse negócio de caminhar é muito monótono. Se a gente vai com
alguém tem que escutar tudo que é dieta, tudo que é problema, tudo que é
chatice e tudo que é mania daquela companhia.
Se, você vai sozinho, vai feito um sonâmbulo. Vai andando, andando,
andando. E se dana a pensar, pensar e pensar. Parece que não há uma sintonia
com a cabeça e os pés. Eu vou assim: pensando, pensando. A primeira coisa que
eu penso é que não paga a pena caminhar. Caminhar, se o objetivo não estiver
logo ali no fim da caminhada, é uma coisa esquisita.
Se durante a caminhada, a gente, suando, não pode pensar em chegar à
casa e abrir uma cerveja, beber um belo de um aperitivo e tirar o gosto com um
pedaço de carne dois pelos!!! Ah! Caminhar torna-se uma coisa triste um
martírio... Ao contrário disso, uma alternativa seria ir rezando e pedindo a
Deus para que os homens inventem um remédio que possa substituir a caminhada.
Bem! De qualquer modo, cada caso é um caso. E, enquanto eu não tenho
certeza, se meu caso vai compensar, vou zoando por aí.
Se existe; eu não sei. Mas, acredito ser difícil encontrar alguém que é
chamado de barrigudo e não se sinta contrariado. Esta história de que caminhar
faz perder barriga é conversa. Sei de gente que vive caminhando e, quanto mais
caminha, mais barrigudo vai ficando.
Existem pessoas que deixam de comer, perdem peso nas outras partes do
corpo, mas a barriga continua. Apenas murcha um pouco, mas continua lá. Se a
pessoa bebe muita água, a barriga cresce na hora. Se, se come, cresce. Para mim
a barriga é a indecência do corpo. Eu tenho tentado tirar do meu vocabulário a
palavra barriga e substituí-la por circunferência abdominal avantajada. Eu acho que ficaria
mais confortável. A tal de barriga é triste. A gente vai calçar um sapato quase
morre com o encontro da coxa com a própria. Perde-se o fôlego. E na hora
daquilo!? Na hora daquilo é como diria um amigo meu: “É brabo com força”! Se a
mulher é também gordinha, chumbo trocado não dói, mas e se ela for magra,
esbelta, toda dentro do trinque?
Suponho que o único jeito de perder a barriga seja através de cirurgia,
exercícios localizados e boca trancada. De uma forma ou de outra, de modo
geral, caminhar deve fazer bem para a saúde, mas esse estilo de “caminhada”,
andando sem necessidade de chegar, não causa em mim nenhum bem estar durante o
exercício. Posso, por necessidade, fazer tudo isso. Mas, não me sinto bem. O meu
ego fica contrariado. E eu lamento.
E já esquentadas as turbinas, encontro-me na Praça Antônio Furtado,
quando avisto uma pessoa já bastante conhecida minha. Aquela meus amigos, que
me atrapalhou a fazer o queijo, quando me pediu dois litros de leite emprestado...
--- Ela pouco gentil e pouco amável. Mas, que me prende na conversa. Pensei
logo: Aí vem chumbo grosso! Parei.
---Bom dia, Sô Armando! Caminhando para perder essa barrigona!?
---É! Mais ou menos isso!...
---O senhor tá muito barrigudo. Precisa dar um jeito nisso, uai!
---Evidentemente, minha barriga não é das menores, mas não chego a ser
um barrigudo... Você diz isso porque tem um marido muito magro.
---O senhor tem cara de quem come muito.
---Nem tanto. É a tendência que eu tenho para engordar.
---Engana eu que eu gosto Sô Armando...
---Bem! Eu estou barrigudo, você já viu. E você como está?
---Com perdão da palavra, eu tô tipo dum estrume.
---Uai! O que houve com você para falar assim?
---É os fio, Sô Armando! Eu não guento ficá longe deles.
---E onde eles estão?
---O senhor vai me discurpá, mas eu num posso contá
---Tudo bem, mas por quê o que houve?
---Eles num quer que eu conte pra ninguém.
---Mas, eles estão escondidos?
---Não! É por causa da inveja. O povo das Candeias é muito invejoso.
---Invejoso! Mas, inveja de quê?
---O senhor não faz ideia do quanto os meus fio são invejados nesta
terra... Se fica sabendo deles é capaz de fazer até macumba para a vida deles
dá errado.
---Quer dizer então que, se você me contar onde eles estão, eu vou sair
repartindo de porta em porta a vida deles?
--- Eu num quis dizer isso, Sô Armando! Pelo amor de Deus!
---Tudo bem. Eu perguntei, por perguntar. Agora, eu lhe peço licença
porque vou continuar a minha caminhada.
---Não! Espera só um pouquinho, Sô Armando. O senhor me discurpa, Sô
Armando, eu me danei com o senhor.
---Deixa isso pra lá.
---Eu queria perguntar uma coisa para o senhor, há muito tempo.
---Pois não. De que se trata?
---A rua do hospital chama hoje Pedro Vieira, Pedro da Dalva do
Zoroastro. Mas o povo mais antigo chama de Rua dos Capão. Eu não me lembro quem
me contou. E eu ouvi dizer que os Derminda e da famía dos Capão.
---Sim, o meu avô, João Delminda, era parente dessa família.
---Por acaso, alguém da famía do senhor foi capado? O senhor é mesmo da
famía dos capão, Sô Armando?
---Sim. Quero dizer, acho que sou. O meu avô, o João Delminda, era
parente desse povo. Mas, por que esta pergunta?
---Uai, Sô Armando, o senhor teve alguém capado na famía do senhor? Como
é que foi isso. Quem foi? Foi o avô do senhor? Seu bisavô? Conta pra mim. Eu
fiquei sabendo que esse povo era parente do senhor e estou quase morrendo de
curiosidade, porque eu já fiquei sabendo que o povo da famía do senhor é meio
sem vergonha. Mas, eu nunca fiquei sabendo nada do senhor e nem dos seus irmãos
e nem nada. Quer dizer, tem gente, na famía do senhor, que é custoso, mas não é
por causa de um que todos é sem vergonha, não é mesmo?
---Olha, eu não sei de que e nem de quem você está falando. Parece que
você sabe mais da minha vida do que da sua!
---Obrigado, Sô Armando. Eu sei mesmo, muita coisa.
---Um dia desses, a Maria, amiga minha lá do Alto do Cruzeiro, me falou
que eu sou uma bilheteira. E que não sabe onde eu fico sabendo de tanta coisa.
---Ela chamou você de quê?
---Bilheteira!
---E você não se ofendeu?
---Não. Por quê?
---Você sabe o que é ser bisbilhoteira?
---Sei.
---O que é?
---Eu perguntei para essa minha amiga e ela disse que eu era uma fiscal
da vida dos otro. E isso não é bom?
--- Agora, você me dá licença eu estou indo continuar na minha
caminhada.
--- Mas, o senhor não me respondeu quem era capado na sua famía.
--- Olha, ninguém foi capado na minha família. Esse negócio de capão é
porque se trata de uma família que veio de um lugar chamado Capão, na zona
rural e tomaram esse codinome. Ninguém foi capado. Meu avô era apenas parente
dessa gente.
--- Mas, o senhor tem certeza? Eu nunca vi falar em roça chamada Capão
não.
Eu já estava para perder a paciência e resolvia dar um basta naquele
papo:
Quando aquela cidadã, toda entortada, começou a cruzar as pernas e
lamentar:
--- “Nossa Senhora”! Aiaiai! Jesus!
--- Mas o que foi? Está passando mal? Perguntei.
---Eu esqueci que tomei três lactopurga e agora!? Tô frita!
Pensei, só pensei, mas não falei: Agora, você vai à merda...! Sua
futiqueira... E continuei a minha caminhada.
Armando Melo de Castro






