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domingo, 3 de julho de 2011

O VASO SANITÁRIO 01

Imagem para simples ilustração do texto.
O VASO SANITÁRIO --- PRIMEIRA PARTE ----
Dando uma arrumada nas gavetas da minha memória, encontro uma família que foi minha vizinha, quando os meus olhos e ouvidos de criança viviam apurando os fatos. Eu era, sem dúvida, um patrulheiro da vizinhança e dava notícia de tudo que se passava ao derredor.
Veio nos vizinhar, oriunda da região das bandas dos Baiões, uma família de cinco pessoas. O pai se chamava Joaquim. Devia ter uns sessenta e tantos anos. Magro, careca, barba rala e um bigode pequeno do tipo Fu Manchu. A mãe, Isabel, tinha o corpo médio, cabeleira grisalha, olhos fundos e sobrancelhas largas. Contava, mais ou menos, a mesma idade do velho. E três filhas solteironas que tinham compostamente o nome de Maria: Maria Isabel, a mais velha. Magra, alta, cabelos escondidos debaixo de um lenço branco. Estava sempre trajando um vestido de chita muito estampada. A segunda, Maria de Fátima, uma morena desajeitada, com traços másculos e trejeitos varonis. Era ela que socava o pilão e o transferia de lugar, na maior facilidade.
A terceira era a Maria das Graças, a mais jovem e que tinha uma aparência um pouco melhor, mas, também, era muito feia. Contudo, era a única que dava um papinho para os vizinhos. Naquele tempo, as mulheres não se preocupavam em fazer depilação e elas tinham tanto pêlo que poderiam competir com certos homens. A velha Isabel, por exemplo, tinha um buço maior que o Fu Manchu do seu marido. Eu era criança, mas, já pensava: aqueles dois se beijando deveria ser uma coisa desarrumada.
Um povo arredio, esquisito. Viviam cochichando nos ouvidos, uns dos outros. Moravam na roça e teriam vindo para a cidade dada a precariedade da saúde do velho. Não se abriam com os vizinhos. A lida da casa começava cedo, quase que com o escuro. Já nessa hora, começava o barulho do pilão socando café torrado para ser coado. Aliás, o pilão era um instrumento de grande serventia naquela casa. Socava-se de tudo: arroz, café, milho, paçoca e outras coisas mais. Quase sempre, era ouvido o ruído do pilar de alguma coisa.
O velho sempre assentado num tôco à porta da rua e as mulheres remexendo o dia todo. Era pouca a conversa. O barulho maior era quando estavam lavando roupa. O batido da roupa no batedouro era ouvido por toda a vizinhança. No mais, era a mão no pilão.
Mas o ruído que mais incomodava a minha mãe era o da vassoura da Maria Izabel, a filha mais velha.
Essa mulher tinha mania de limpeza o que, hoje, chamamos de T.O.C (Transtorno Obsessivo-Compulsivo). Ela varria o terreiro da porta da rua, duas ou três vezes por dia. E como a rua não tinha calçamento, o poeirão que se levantava deixava as casas dos vizinhos empoadas, causando um tremendo incômodo. Calcava a vassoura no chão, com tanta força, que parecia que queria lavrar a terra.
Mas quem ficava mais prejudicada com isso era a minha mãe.
O terreiro do quintal deles era amplo e de terra. E como a praga tiririca lastrava muito, quando ela varria, ficava tentando detonar as raízes com a vassoura. E nessa incitação, a poeira que levantava acomodava na nossa casa nova, pois tínhamos mudado, recentemente, para a casa inda há pouco construída.
Minha mãe ficava danada da vida, mas fazer o quê?
Naquele tempo, quase não havia vasos sanitários dentro de casa. Quase não havia os chamados banheiros. Isso era coisa das pessoas mais aquinhoadas. Mesmo porque, não era comum água encanada dentro de casa. A chamada pena dágua, por vezes, era dividida entre dois vizinhos. E a pressão da água era tão pouca que, em diversos pontos da cidade, não tinha força suficiente para subir até ao teto da casa. As cisternas eram comuns. A profissão de furador de cisternas e fossas era evidente e esses profissionais tinham o cuidado de furar a cisterna distante da chamada latrina seca, no mínimo de dez metros, para a não contaminação do lençol freático.
Usavam-se, muito, essas latrinas nos fundos dos quintais. Consistia num pequeno cômodo de, no máximo três metros quadrados, sobre uma fossa soalhada ou cimentada com um pequeno orifício por onde as pessoas faziam as suas evacuações. Sem dúvida, tratava-se de um gabinete bastante desconfortável e anti-higiênico. E à noite, essas necessidades eram feitas com o uso do penico ou urinol. Um tipo de vaso portátil, esmaltado que ficava debaixo da cama. Eu tive uma experiência com essa coisa quando menino e foi um desastre. Foi terrível.
O tempo ficou incumbido de trazer até à sociedade proletária o conforto do banheiro. Ou seja, um chuveiro elétrico ou de serpentina para os banhos; o vaso sanitário para as necessidades fisiológicas e o lavatório para substituir o caneco na lavação das mãos e do rosto. Começava o fim da era do jarro esmaltado e da bacineta.
Mas, isso, de antemão, não era bem compreendido. Quando as pessoas mais humildes, que ainda não conheciam esse conforto, ouviam, resumidamente, falar que seria colocada uma latrina dentro de casa, muitas pessoas se assustavam e já imaginavam as moscas verdes, as varejeiras, voando e sobrevoando sobre os alimentos.
Assim, foi o comentário da Maria Isabel, maníaca da limpeza, quando foi dada, ao seu pai, a sugestão de colocar um vaso sanitário dentro de casa para facilitar as suas defecações, porque, dado ao seu estado de saúde, estava tendo dificuldade para usar os urinóis.
Nesse dia, eu pude ouvir tudo, tim-tim por tim-tim, dada a proximidade das nossas casas, porque ela, com a sua mania de limpeza, ficou, totalmente, desesperada e bradou alto e em bom som:
---Mais de jeito ninhum, papai, que eu vou deixá fazer privada dentro de casa! Isso eu num aceito mesmo!
---Mais num é privada dentro de casa, Lia! É um vaso, num quartinho, que vai sê separado, explicou o velho...
---Mais de jeito ninhum! E isso num é privada? O pinico tá muito bão. É só comprar um maior!..
---Mais o seu pai já tem o maior, Lia, e ele tá fazendo o trem fora... Comentou a velha---
---Mamãe, é bão nem pensá! Vacuá aqui dentro, mais de jeito ninhum!... Já pensou no cheiro que vai dá, dentro de casa? Océis já pensou gente!!??
---Mais no pinico, tamém, é feito dentro de casa, Lia! Que bobage é essa sua? Contestou a Mariazinha, a caçula.
---Mais de jeito ninhum! Cedinho, a mamãe leva pra latrina e já lava o pinico lá fora e ninguém vê nada. Agora, uma privada, dentro de casa, vai sê uma lambança! A catinga e as moscas...E quem vai me dizê que num vai tê chero? Gente, cumé que océis vê as coisa?
---Eu já vi falá que esse trem é bão. Lá no consultório, do Dr. Renato, tem. É um pinicão e, no fundo dele, é cheio dágua! A gente “faz” é dentro dágua. E essa água some. Num tem como chegar mosquito não e a porcaria vai para um buraco, feito do lado de fora. Concluiu a Maria de Fátima.
---Ah!Me vale Nossa Senhora da Conceição! Até ocê, Fatinha? Onde já se viu fazê necessidade dentro dágua. Meu Deus! Océis num incherga!!! E o dia que fartá água?Tá sempre fartando... Mais eu num posso acreditar que oceis qué uma coisa dessa pra nóis....Óia, aqui:! Océis que sabê? Se puzé privada, dentro de casa, eu num fico aqui de jeito ninhum. A casa vai virá uma imundiça. E eu num to pa imundiça. Eu vorto pa roça. Lá, num tem essas invenção. Tem é muito mato, muita moita. Lá a gente fazia necessidade sossegada, sem ninguém pa iscuitá o barulho.
---Barulho!? Mais qui barulho, Lia?
---Uai, barulho, uai! Ah! Sei não!
(Continua na próxima postagem)
Armando Melo de Castro

sexta-feira, 1 de julho de 2011

UMA VIAGEM DE CARRO


Um carro, por mais velho que fosse, na década de 50, era um luxo. Eu nunca havia entrado num carro e vivia imaginando este dia quando chegasse e chegou quando um compadre do meu pai, Sr. Otávio Martins o convidou para ir numa viagem à usina velha de Candeias, naquele tempo em pleno funcionamento e era o ponto turístico dos candeenses. ----- não existia ainda a Cemig. ---- Meu pai não estava querendo me levar, mas eu aprontei uma choradeira e logo fui liberado para entrar naquele  carro velho.  Eu acho que nem Yuri Gagarin se emocionou tanto quando entrou no seu foguete, rumo ao espaço.

Ao ver o meu pai sendo convidado, me senti também convidado. E já me postei como tal, quando ouvi da impossibilidade de me levar. No que a defesa natural de uma criança foi desabada: o choro. Vendo-me chorar, Otávio insistiu para que eu fosse também, incluído na lotação que já contava seis pessoas dentro do galipão. Parecia sardinha na lata, e eu todo feliz, parecia até fazer parte de uma comitiva do Papa.

Se cem anos de vida eu tivesse, durante cem anos eu me lembraria dos 10 minutos vividos nesse dia. Eu, no colo do meu pai, enquanto o carro foi descendo, vagarosamente, passando pelos buracos da Rua Coronel João Afonso. Eu estava na maior felicidade do mundo. Alucinado, empolgado, encantado muito mais do que Gagarin, quando voou ao céu profundo com a sua Vostok. E mais ainda do que Colombo, quando encontrou o Novo Mundo.

Após passar a ponte, ao começar a galgar o morro, ouviu-se um estalo. Um grande estalo, debaixo do carro. E, junto com o estalo, Otávio murmurou: - “ai ai ai! Deve ter quebrado.” E quebrou mesmo...

O Nestor Lamounier foi chamado e ficou confirmado que o motor do carro havia quebrado e que não teria recurso. Foi uma decepção para todos, mas para mim, foi uma decepção maior. Era aquela a primeira viagem que eu fazia de carro. E apenas um estalo roubou-me toda aquela felicidade. Era um sonho meu entrar num carro. Dar uma volta de carro. Sentir o cheiro de um carro. E agora, após ter conseguido a realização desse intento, a custo de lágrimas, o destino vem me roubá-lo? Era muito azar. Se eu imaginasse quem seria o “pé frio” que estava ali naquele carro eu o teria apedrejado. Aliás, isso nem seria azar seria um castigo dos céus. Só podia ser...

Para rebocar o carro para a mecânica, a forma encontrada foram quatro juntas de bois que o arrastou, morro acima, aos gritos de um carreiro e o mecânico no volante. E eu, da porta de minha casa, vi passar aquela carreata fúnebre aos meus olhos cujo carro eu nunca mais pude ver novamente. Toda vez que vou até à antiga usina, eu não fico sem imaginar como teria sido aquela viagem que eu não fiz e que teria sido uma das alegrias da minha vida frustrando a minha pobre infância pelo resto de minha vida.

No transcorrer da minha vida, já tive diversos carros. Mas, nenhum deles, jamais, terá me causado tanta emoção como o galipão do Otávio Martins.

Dizem que o homem é um produto do meio, portanto, aí está a pobreza transformada em lirismo é a presença de Deus. É como diz o poeta: “A felicidade está sempre perto da gente. É pena que nós a procuramos longe do lugar onde estamos”.

 Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.











terça-feira, 21 de junho de 2011

ANTIGOS BARES CANDEENSES

                              


Este texto foi transferido para o livro Candeias MG Casos e Acasos.

terça-feira, 14 de junho de 2011

UM PEDIDO DE EMPRÉSTIMO


Da casa de minha mãe, em Candeias, para ir ao Supermercado Faria é um sacrifício. A Rua José Hilário da Silva tem uma subidinha terrível. E eu, já com os meus sessenta e oito anos, não tenho tanta disposição para ficar subindo ladeiras. Num passo lento, dá para ir bem. Mas, a passos largos, a gente chega ao ponto final da linha pondo a alma pela boca.

Dizem que, para se encontrar com o diabo, não precisa madrugar e isso é uma verdade. Ontem, por volta das 11 horas, minha mãe me pediu para comprar uma carne para o almoço com a recomendação de não demorar porque a moça que faz a comida “já ia colocar a panela no fogo” em uma forma bem familiar de dizer para não demorar. 

Às vezes, eu me encontro com um amigo e me pego no papo sempre deixando alguém a esperar. Evito fazer esse percurso de carro para sair um pouco do sedentarismo que a vida me impõe graças ao uso indiscriminado do controle remoto, do celular, do automóvel e outras facilidades advindas do modernismo.

De tanto a minha mãe falar para não demorar, acabei subindo o morro um pouco apressado o que me levou a chegar ao supermercado cansado.

Como subi apressado, era minha intenção descer, também, apressado. Mas, quando vou descendo, nas imediações da Praça da Fraternidade, vem subindo, por ali, aquela senhora amiga que sempre me azucrina, mas, que sempre me prende no papo. Uma verdadeira peça rara. Um tipo de gente que se dela for um amigo não há nenhuma necessidade de ter um inimigo. Sua vida é um drama que poderia se transformar em uma novela da Rede Globo.

Quando a vi pensei: “Ai, Meu Pai dos Céus, justamente agora!.” Já pude imaginar qual poderia ser o assunto... Uma pessoa que sempre está pondo mãos postas e lamentando a ausência dos seus filhos.

Há dias que me dá uma vontade de lhe perguntar por que não nasceu rica!? Poxa! A mulher só sabe reclamar da vida, da ausência dos filhos! Da chatice do marido! Meu Deus, como tem gente aborrecida, neste mundo!

-- Oi, Sô Armando, lá vai com pressa? O que que foi? Tem alguém morrendo?

--Não. É que eu fui comprar uma carne para o almoço e a panela já está no fogo...

--Ah! Tem dó, Sô Armando, onde já se viu isso... Põe a panela no fogo e sai pra rua. 
Homem é bicho burro mesmo.

---Quando disse que a panela está no fogo se trata de uma forma de  dizer que estou com pressa, mas, na verdade, não tem nenhuma panela no fogo.

--- Sô Armando, hoje eu ricibi uma carta da minha fia. Ela falou bonito dimais na carta, Sô Armando! O senhor sabe que eu até chorei?

---Mas, o que houve que lhe causou lágrimas?

---A minha fia, Sô Armando, que ganhava dois salários, por mês, agora vai ganhar treis, Sô Armando! Treis salário, Sô Armando, e o senhor já pensou?

---Já! Já pensei. Agora, ela vai lhe mandar um de presente, não vai?

---Tá sorto, Sô Armando! Tá sorto! Quem me dera! ---- Ela é assim: se ganha um, gasta dois; se ganha dois, gasta treis e se ganha treis, gasta quatro. Já está lá, comprando um celular novinho, coisa chique mesmo...

---Mas, você tem que ensiná-la a administrar o dinheiro. Isso é uma questão de ensinamento...

---Que mané ensinamento, Sô Armando! Parece que o senhor nunca criou um fio. Óia, eu ensino dum jeito, eles faz do outro? Eu só ensinei ela a ganhar, mas, ela só aprendeu a gastar... Foi embora e me deixou, aqui, dando a cara à tapa para as dívidas dela. Manicura, cabilerêra, prestação de rôpa. Um fregi de conta pra pagá em cima de mim. E ela num manda nada. E ainda vive pedindo.

---E você dá?

---Uai, mãe é mãe, né, Sô Armando! Mas eu nunca tenho!

---Mãe é boba, você deveria dizer!

---O senhor porque não é mãe.

---E o pai dela!?

--- Que nada. O pai dela num tá nem aí. Cobra dele e ele só fala: A hora que ela chegar aqui, eu mando ela ir lá... E, assim, ele vai enrolando tamém. E, lá em casa, só eu que tenho cara pra crescer, cara para ficar vermelha e cara para cair no chão. Eu já num to agüentando mais. Eu, tamém, tô tendo que enrolar. Eu num tenho como virar dinheiro. O trem é brabo...

---Olha, você me dá licença porque minha mãe está esperando a carne...

---Não, Sô Armando, espera só um pouquinho! Eu estou precisando falar com o senhor e é muito importante para mim.

---Então diga...

---Será que dá para o senhor me emprestar cem reais?

---Parece que nós temos um pequeno acerto antigo, não temos?

---Uai, de quê, Sô Armando?

---Você não se lembra?

---Uai, num lembro não...

---Bom. Então, deixa isso pra lá. Como você ia dizendo?...

---Então, tá bão! Eu queria ver se o senhor me empresta cem reais, por uns dias pouco.

---Eu conheço esse filme. Se eu lhe emprestar, quem vai pagar? Ela ou você?

---Bem, Sô Armando, é ela. Eu não tenho como. E, depois, como o senhor sabe, eu tenho recebido cobrança de dividas dela, desde que foi embora. A menina é discabiciada. Deixou unha, cabelo, farmácia, tudo pra eu pagar e já recebi outras cobranças...

---Olha, eu não tenho esse dinheiro, senão, eu lhe emprestava.

---O quê, Sô Armando?!!! O Sr. num tem cem conto? Engana eu que eu gosto. Deus vai castigar o senhor por falar uma mentira desse tamanho. Se o senhor num quer me emprestar eu até entendo, mas, dizer que num tem. Nossa, Meu Deus! Que pecado! Que coisa feia, Sô Armando, menti assim, tão descaradamente. Eu num vou ficar com raiva do senhor não, mas, tem gente que fica.

--- Olha, eu vou ser franco com você. A gente empresta quando sabe que vai receber. Do jeito que você está falando, eu não vou receber nem no dia de São Nunca.

---Bem, Sô Armando, já que o senhor não tem os cobres, ou num quer emprestar, bem que podia pedir a sua mãe para emprestar para mim...

---Eu! Pedir a minha mãe para emprestar para você?! Tenha a santa paciência.

---É, Sô Armando. O senhor é um amigo igual banheiro intupido: num pode usar quando pricisa. É uma torneira sem água, numa pia cheia de trem sujo. É uma cama sem colchão pra quem tá com sono. É fogão sem fogo pra quem quer conzinhar. Amizade, assim, num adianta, uai!

----Então até logo, outra hora a gente conversa mais...
----Vai com Deus Sô Armando, mas deixa de ser mentiroso viu?

Cheguei à casa e ainda levei uma baita bronca de minha mãe por ter demorado a voltar com a carne.


Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

domingo, 5 de junho de 2011

UMA FERIDA CANDEENSE


---- Candeias, no passado, teve dois pontos turísticos relevantes. Um deles é a cachoeira na qual foi instalada, no princípio do século passado, a usina hidroelétrica do senhor Celestino Bonaccorsi, quando Candeias, era ainda, um distrito de Campo Belo. ----- Com o advento da Cemig para Candeias, na década de 60, a usina do senhor Bonaccorsi foi vendida para a Prefeitura. --------------------------  O outro ponto era a Serra do Senhor Bom Jesus, devastada pela indústria da pedra, fazendo dela uma buraqueira desmedida e esburgando a sua beleza original.

----Lamentável é o fato de que as pessoas, então, responsáveis pelo município de Candeias e que deveriam e poderiam, sem dúvida, terem impedido essa destruição não o fizeram, simplesmente por falta de sensibilidade; falta de patriotismo; falta de cultura e compromisso para com o futuro. E a nação candeense assistiu dos camarotes de sua história, esvair-se lhe de um patrimônio que deveria fazer parte dos anais da história do município a exemplo de muitos outros municípios que tiveram as suas usinas municipais ou particulares desativadas pela chegada da Cemig, mas aproveitadas como ponto de turismo cultural ou lazer.

 ---O local era frequentado pelo povo de Campo Belo, que tinha a usina de Candeias como um passeio turístico.

---- Aos domingos, principalmente, carros e caminhões do tipo pau-de-arara, dirigiam-se para aquele local a fim de se banhar e pescar. E como tinha peixe! Lambaris, piabas, cascudos, mandis e muitas outras espécies eram pescados entre aquelas pedras, pois havia ali diversos tanques. O local era também servido ao povo de Campo Belo, principalmente no verão.

---Lembro-me do Zequinha da Donate. Ele era ainda bem criança e nadava feito um peixe, mergulhava-se e saía sempre com um peixe na mão.

---As pessoas assando churrasco, bebendo cerveja e tudo era uma alegria. Acontecia, de quando em vez, uma briguinha que não ia para frente porque a turma do “deixa-disso” logo dava um jeito.

---Na área, existia um chalé onde sediava o Clube dos 21. Eram vinte e um sócios, dos quais me lembro do Luizinho Bonaccorsi, Midinho, Orlando do Melão, e outros.

---O ambiente era saudável e não havia deturpação. Parece-me que naquele tempo as pessoas tinham mais compromisso com a cidadania, com a civilidade o que, infelizmente, tem faltado muito, nos dias atuais.

Pessoas idosas frequentavam em comum àquele local. Pessoas requintadas da nossa sociedade iam ali, se divertiam e voltavam satisfeitas. O povo candeense, se misturava sem preconceitos; era o negro e o branco; o rico e o pobre; o feio e o bonito. ---- A beira do canal da usina, próximo da casa dos usineiros, era gente cantando ao som de violão; assando carne, bebendo cerveja quase quente e tomando cachaça. Que tempo bom meu Deus! Aquilo não poderia ter acabado. Os usineiros sempre emprestava um quarto para as senhoras trocarem de roupa e as suas salas para pessoas idosas.

---Estava sempre presente um vendedor de bebidas ambulante, com cerveja gelada, levada através de um tambor com barras de gelo com serragem. Gelo que era fornecido em barras pela manteigueira.

---Era interessante para as crianças quando ficavam conhecendo o local onde era gerada a energia elétrica que iluminava a cidade. Eu fiquei abismado quando vi, pela primeira vez, as máquinas que produziam a luz que iluminava as nossas casas. Lembro-me, ainda, do meu pai tentando me explicar como era feita esta transformação. Lembro-me da minha curiosidade em saber como transformar água em luz.

 ---À porta da usina, havia um grande passeio no qual os pescadores, em outros dias, à noite, estendiam os seus lençóis próximos de uma pequena fogueira, debaixo do pé de manga até hoje lá existente. Comiam, bebiam e dormiam. Meu pai era um desses pescadores e sempre se me fazia acompanhá-lo

---A casa com as duas residências dos usineiros e o canal deveriam ter sido aproveitados como um clube campestre municipal.

Sabe-se que em muitas cidades, onde as prefeituras se tornaram proprietárias de usinas que antecederam a Cemig, foram transformadas em pontos turísticos para o povo. A cultura de preservação do patrimônio público estava presente nesses municípios. Privilégio que o povo de Candeias não teve.

---Infelizmente nada foi aproveitado. Até o galpão todo construído de pedra, onde fora instalada as máquinas geradoras, foi aproveitado, tendo sido destruído deixando apenas um rastro da falta de sensibilidade, falta de amor e falta de competência administrativa dos responsáveis de então. Nada foi conservado como herança para as novas gerações.

--Aqui, em Candeias, aquele local onde poderia estar à vista dos nossos jovens um local histórico, está os sinais da destruição desalmada; da irresponsabilidade daqueles que detinham o poder na época dessa transição. Nem o galpão, todo construído de pedra onde foi instalada a usina, mereceu ser preservado. Parece até, que o instinto de destruição dos responsáveis exercera ali o impulso inato da insensibilidade; da falta de respeito com aqueles que teria construído um capítulo importante da história de Candeias.

--- A outra destruição foi na Serra do Senhor Bom Jesus. Ali poderia ter sido reservado para um parque ecológico bem próximo à zona urbana. ----- Candeias tendo diversas pedreiras em seu município poderia as pedreiras da Serra do Senhor Bom Jesus terem sido poupadas da destruição.  No entanto os responsáveis pelo município permitiram a destruição de uma área que jamais poderia ter sido agredida pela indústria da pedra. Mas as mazelas dos responsáveis, cuja ignorância exigida para o poder público seria dispensada, permitiu mais esse prejuízo para a história do nosso município.

--Na Serra do Senhor Bom Jesus, os jovens faziam os passeios dominicais, chamados piqueniques. Os namorados se juntavam num grupo, muitas vezes acompanhados pelos pais e levavam os lanches na época chamados de “merenda” ou, até mesmo, de uma refeição leve. Não existiam os rádios à pilha, portanto, para o barulho sonoro era levado um violão. E, debaixo de uma árvore, a turma se reunia, quase sempre, perto de uma grande pedra onde, muitas outras, serviam de mesa e de bancos. A área tinha diversas frutas silvestres como guabiroba, araticum-cagão, marmelada-de-cachorro, araçá e muitas outras, cada uma no seu tempo.

---Meu Deus! Como nós que amamos a terra em que nascemos, precisamos de alguém que cuide bem de nossa tão querida terra Candeias. Alguém que a preserve e a ame de verdade.

---Infelizmente a nossa história está marcada por capítulos tristes, que poderiam ser evitados. É lamentável... Deveras lamentável.

Armando Melo de Castro.

sábado, 4 de junho de 2011

O ESPÍRITA DOIDÃO


                   
Segundo o francês Alan Kardec, o codificador do Espiritismo, esta é uma doutrina revelada pelos Espíritos superiores através de médiuns, ou seja, de pessoas que recebem e transmitem mensagens dos espíritos. 

Dentro do conceito Kardecista, o Espiritismo é, também, uma ciência porque estuda, à luz da razão e dentro de critérios científicos, os fenômenos mediúnicos, isto é, fenômenos provocados pelos espíritos e que não passam de fatos naturais. Segundo eles, não existe o sobrenatural no Espiritismo. Todos os fenômenos, mesmo os mais estranhos, têm explicação científica. São, portanto, de ordem natural.

Outro ponto de vista é que o Espiritismo se trata de uma filosofia porque, a partir dos fenômenos espíritas, dá uma interpretação da vida respondendo questões como “ de onde você veio”, “ o que faz você no mundo” e “para onde você vai depois da morte”. Para os Kardecistas, toda doutrina que dá uma interpretação de vida ou uma concepção própria do mundo é uma filosofia.

Dizem, também, que o Espiritismo é uma religião porque ele tem, por fim, a transformação moral do homem retomando os ensinamentos de Jesus Cristo para que sejam aplicados na vida diária de cada pessoa. Revive o Cristianismo na sua verdadeira expressão de amor e caridade.

O Espiritismo não é uma religião organizada dentro de uma estrutura como as demais religiões. É muito diferente. Não tem sacerdotes, nem pastores, nem chefes religiosos. Não tem igrejas suntuosas. E não têm batismo e casamentos, etc. Não tem ornamentação para cultos, nem gesto de reverência, nem benzeduras e nem defumadores. Não tem nada do que é encontrado nas igrejas tradicionais.
O Espiritismo, segundo os seus adeptos, procura reviver os ensinamentos de Jesus, na sua simplicidade e sinceridade, sem pompas, sem grandezas, pois, como Ele recomendou, Deus deve ser adorado em espírito e verdade.

Os espíritas pregam a imortalidade da alma, a reencarnação e a comunicabilidade dos espíritos, uma fé raciocinada, a lei da evolução e a lei moral.

Sintetizando, entendo que o Espiritismo de Alan Kardec deve ser muito bem estudado para uma conclusão tendo em vista tratar-se de um tema profundamente teórico.
Segundo Kardec, o vocábulo “Espiritismo” cabe à sua doutrina e esta não deve ser confundida com o "Espiritualismo".

Paralelamente, existem outros conceitos religiosos que defendem a imortalidade da alma, porém, através de um comportamento diferenciado, o que leva as pessoas, menos esclarecidas, a uma grande confusão e interpretação equivocada da doutrina, em virtude de algumas semelhanças:

A Umbanda, por exemplo, nasceu no Rio de Janeiro, após a codificação Kardecista. Supostamente derivada da cabula baiana, se tranformou em um sincretismo religioso sendo fracionada em diversos conceitos religiosos como Umbanda Branca, Umbanda Angolana, Umbanda Negra e Quimbanda dedicada à feitiçaria, macumbas etc.

Ocorre que, por se tratar de um tema muito complexo, essas instituições, que são diferenciadas, se misturam na percepção de cada um. Uns entendem as diferenças. Outros entendem pouco. E muitos não entendem nada. E assim, a cultura brasileira permite-se tratar por todos esses conceitos o vocábulo designado por Kardec, "ESPIRITISMO", não reconhecendo a diferença do conceito de sua doutrina do ESPIRITUALISMO.

Candeias tem uma casa espírita. É o Centro Espírita Bezerra de Menezes, situado na Rua João Caetano de Faria. Trata-se de uma instituição séria e administrada por pessoas sérias que prestam relevantes serviços espirituais aos candeenses que lá freqüentam e seguem religiosamente a codificação kardecista.

Mas, falando em Espiritismo, encontro, neste momento, numa das gavetas da minha memória, um fato antigo acontecido há muitos anos aqui, em Candeias.

Na Rua Aimorés, nos fundos do Cemitério São Francisco, quase que defronte a Rua Nicodemos Salviano, havia ali um Centro Espírita cujo nome era “Centro Espírita Coração de Jesus”. Era um espiritismo conturbado, desses que fazem o chamado sincretismo religioso misturando doutrinas heterogêneas.

As instituições religiosas têm, nos seus hábitos, buscar a integração maior de seus seguidores e de pessoas que de uma hora para outra aderem aos seus princípios. Na Igreja Católica, por exemplo, vemos pessoas serem convidadas para ler texto dos rituais da missa. Nas igrejas evangélicas, sempre se vê pessoas dar testemunho de algo importante que lhe tenha acontecido proveniente da sua fé.

No Espiritismo, comumente, são vistos os seus adeptos dar a sua palavra de fé, de esperança e de caridade. Leigos, pessoas da assistência e que ali estão ou com a intenção de ajudar alguém ou vão em busca de algo que lhes ajude. Normalmente, se apresentam espontaneamente e são convidados pelo presidente do Centro a participar do ritual.

Oriundo de terras nordestinas, vindo em busca de trabalho, nas lavouras candeenses, eis que aporta, em Candeias, numa curta temporada, o senhor Amadeu. Pessoa simples, de porte humilde, trazendo consigo a fé inabalável, aquela que permeia todas as suas crenças, com o irmão em Cristo.
Certo dia, o senhor Amadeu solicitou, ao Presidente do Centro, a possibilidade de dirigir a palavra aos presentes no que foi prontamente atendido. Após se postar a frente de todos, começou:

Meus irmãos, aqui presentes.
Isso aqui é uma casa de Deus.
Pra mim isso aqui num é lugar de cunversa fiada.
E é lugar de silêncio.
Esse povo que fica aí na porta, só falano coisa que não deve, tá errado.
A Bíblia fala que Jesus vai vortá, aqui, um dia desse.
Agora, eu pergunto procêis:
Se Ele chega aqui, agora, cume qui nóis fica com essa farta de respeito?
Assim, o que eu quero aqui é pedir para esses irmão cala o bico porque se Jesus chega aqui, hoje, nóis tá vai tá tudo fudido.

Desde então, ficou sendo conhecido como o Espírita Doidão.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.





domingo, 8 de maio de 2011

A RAINHA DO COCHICHO

Até há pouco tempo eu ia todos os meses a Candeias para visitar minha mãe. Apesar da minha residência fora eu sempre me considerei, também um morador presente em Candeias. Durante anos eu intercalei as minhas ações com Candeias, consultas médicas rotineiras, conta bancária, o meu título de eleitor, nunca tomei café que não fosse de Candeias, queijos etc. E mesmo quando morei bem distante, como em Governador Valadares e São Paulo, nunca pude ser considerado um ausente.

 

 À bem da verdade eu me considerava ter duas residências. Mesmo porque eu nunca teria me desligado definitivamente da minha terra mesmo estando trabalhando por muitos anos fora. Com a minha aposentadoria eu fui, ainda mais frequente. Uma espécie de ciclo social que teve fim depois de mais de cinquenta anos, após a recente morte de minha mãe no ano passado.

 

Portanto, durante esse tempo eu estive por várias vezes no consultório do Dr. Celso Andrade na Rua Pedro Vieira de Azevedo, fazendo uma consulta rotineira que faço, uma vez por ano, para ver como está a minha carcaça.

 

Durante a última visita que fiz numa consulta ao Dr. Celso, o médico me recomendou fazer algumas caminhadas. Afinal a idade e o sedentarismo me fazem de certa forma modulado em toucinho e a minha barriga não é que esteja muito grande, mas está ficando caída para frente, criando um debrum e aquilo é de incomodar e causar estorvo. A gente aperta o cinto, mas este não se prende no umbigo. Fica um negócio desarrumado.

 

E já que caminhar teria sido um conselho médico e caminha trata-se de uma tarefa que não podemos delega-la como pagar para que alguém a faça por nós, o recurso é andar. Se tivesse como pagar para andar para mim, eu juro que eu tiraria da boca para isso. Mas como não tenho como fazer isso, o remédio é escutar o conselho do médico e pronto.

 

Assim, naquele momento então, me levantei cedo, às sete horas da manhã, com o estômago forrado, com um belo pão com manteiga, uma canecada de café com leite e mais um pedaço de bolo de fubá, zarpei, todo engalanado à moda dos caminheiros, da minha residência, na Rua Vereador José Hilário da Silva 36.

 

Dali tomei a Rua Pedro Vieira de Azevedo rumo à Praça Antônio Furtado, onde tomaria a Rua Professor Portugal, Amorés e daí, seguindo sempre em busca de uma baixada. O que não estaria, no meu projeto, seria algum morro. Só baixadinha. Afinal, eu não queria gastar energia.

 

Para mim, esse negócio de caminhar é muito monótono. Se a gente vai com alguém tem que escutar tudo que é dieta, tudo que é problema, tudo que é chatice e tudo que é mania daquela companhia.

 

Se, você vai sozinho, vai feito um sonâmbulo. Vai andando, andando, andando. E se dana a pensar, pensar e pensar. Parece que não há uma sintonia com a cabeça e os pés. Eu vou assim: pensando, pensando. A primeira coisa que eu penso é que não paga a pena caminhar. Caminhar, se o objetivo não estiver logo ali no fim da caminhada, é uma coisa esquisita.

 

Se durante a caminhada, a gente, suando, não pode pensar em chegar à casa e abrir uma cerveja, beber um belo de um aperitivo e tirar o gosto com um pedaço de carne dois pelos!!! Ah! Caminhar torna-se uma coisa triste um martírio... Ao contrário disso, uma alternativa seria ir rezando e pedindo a Deus para que os homens inventem um remédio que possa substituir a caminhada.

 

Bem! De qualquer modo, cada caso é um caso. E, enquanto eu não tenho certeza, se meu caso vai compensar, vou zoando por aí.

 

Se existe; eu não sei. Mas, acredito ser difícil encontrar alguém que é chamado de barrigudo e não se sinta contrariado. Esta história de que caminhar faz perder barriga é conversa. Sei de gente que vive caminhando e, quanto mais caminha, mais barrigudo vai ficando. 

 

Existem pessoas que deixam de comer, perdem peso nas outras partes do corpo, mas a barriga continua. Apenas murcha um pouco, mas continua lá. Se a pessoa bebe muita água, a barriga cresce na hora. Se, se come, cresce. Para mim a barriga é a indecência do corpo. Eu tenho tentado tirar do meu vocabulário a palavra barriga e substituí-la por circunferência abdominal avantajada. Eu acho que ficaria mais confortável. A tal de barriga é triste. A gente vai calçar um sapato quase morre com o encontro da coxa com a própria. Perde-se o fôlego. E na hora daquilo!? Na hora daquilo é como diria um amigo meu: “É brabo com força”! Se a mulher é também gordinha, chumbo trocado não dói, mas e se ela for magra, esbelta, toda dentro do trinque?

 

Suponho que o único jeito de perder a barriga seja através de cirurgia, exercícios localizados e boca trancada. De uma forma ou de outra, de modo geral, caminhar deve fazer bem para a saúde, mas esse estilo de “caminhada”, andando sem necessidade de chegar, não causa em mim nenhum bem estar durante o exercício. Posso, por necessidade, fazer tudo isso. Mas, não me sinto bem. O meu ego fica contrariado. E eu lamento.

 

E já esquentadas as turbinas, encontro-me na Praça Antônio Furtado, quando avisto uma pessoa já bastante conhecida minha. Aquela meus amigos, que me atrapalhou a fazer o queijo, quando me pediu dois litros de leite emprestado... --- Ela pouco gentil e pouco amável. Mas, que me prende na conversa. Pensei logo: Aí vem chumbo grosso! Parei.

 

---Bom dia, Sô Armando! Caminhando para perder essa barrigona!?

---É! Mais ou menos isso!...

---O senhor tá muito barrigudo. Precisa dar um jeito nisso, uai!

---Evidentemente, minha barriga não é das menores, mas não chego a ser um barrigudo... Você diz isso porque tem um marido muito magro.

---O senhor tem cara de quem come muito.

---Nem tanto. É a tendência que eu tenho para engordar.

---Engana eu que eu gosto Sô Armando...

---Bem! Eu estou barrigudo, você já viu. E você como está?

---Com perdão da palavra, eu tô tipo dum estrume.

---Uai! O que houve com você para falar assim?

---É os fio, Sô Armando! Eu não guento ficá longe deles.

---E onde eles estão?

---O senhor vai me discurpá, mas eu num posso contá

---Tudo bem, mas por quê o que houve?

---Eles num quer que eu conte pra ninguém.

---Mas, eles estão escondidos?

---Não! É por causa da inveja. O povo das Candeias é muito invejoso.

---Invejoso! Mas, inveja de quê?

---O senhor não faz ideia do quanto os meus fio são invejados nesta terra... Se fica sabendo deles é capaz de fazer até macumba para a vida deles dá errado.

---Quer dizer então que, se você me contar onde eles estão, eu vou sair repartindo de porta em porta a vida deles?

--- Eu num quis dizer isso, Sô Armando! Pelo amor de Deus!

---Tudo bem. Eu perguntei, por perguntar. Agora, eu lhe peço licença porque vou continuar a minha caminhada.

---Não! Espera só um pouquinho, Sô Armando. O senhor me discurpa, Sô Armando, eu me danei com o senhor.

---Deixa isso pra lá.

---Eu queria perguntar uma coisa para o senhor, há muito tempo.

---Pois não. De que se trata?

---A rua do hospital chama hoje Pedro Vieira, Pedro da Dalva do Zoroastro. Mas o povo mais antigo chama de Rua dos Capão. Eu não me lembro quem me contou. E eu ouvi dizer que os Derminda e da famía dos Capão.

---Sim, o meu avô, João Delminda, era parente dessa família.

---Por acaso, alguém da famía do senhor foi capado? O senhor é mesmo da famía dos capão, Sô Armando?

---Sim. Quero dizer, acho que sou. O meu avô, o João Delminda, era parente desse povo. Mas, por que esta pergunta?

---Uai, Sô Armando, o senhor teve alguém capado na famía do senhor? Como é que foi isso. Quem foi? Foi o avô do senhor? Seu bisavô? Conta pra mim. Eu fiquei sabendo que esse povo era parente do senhor e estou quase morrendo de curiosidade, porque eu já fiquei sabendo que o povo da famía do senhor é meio sem vergonha. Mas, eu nunca fiquei sabendo nada do senhor e nem dos seus irmãos e nem nada. Quer dizer, tem gente, na famía do senhor, que é custoso, mas não é por causa de um que todos é sem vergonha, não é mesmo?

---Olha, eu não sei de que e nem de quem você está falando. Parece que você sabe mais da minha vida do que da sua!

---Obrigado, Sô Armando. Eu sei mesmo, muita coisa.

---Um dia desses, a Maria, amiga minha lá do Alto do Cruzeiro, me falou que eu sou uma bilheteira. E que não sabe onde eu fico sabendo de tanta coisa.

---Ela chamou você de quê?

---Bilheteira!

---E você não se ofendeu?

---Não. Por quê?

---Você sabe o que é ser bisbilhoteira?

---Sei.

---O que é?

---Eu perguntei para essa minha amiga e ela disse que eu era uma fiscal da vida dos otro. E isso não é bom?

--- Agora, você me dá licença eu estou indo continuar na minha caminhada.

--- Mas, o senhor não me respondeu quem era capado na sua famía.

--- Olha, ninguém foi capado na minha família. Esse negócio de capão é porque se trata de uma família que veio de um lugar chamado Capão, na zona rural e tomaram esse codinome. Ninguém foi capado. Meu avô era apenas parente dessa gente.

--- Mas, o senhor tem certeza? Eu nunca vi falar em roça chamada Capão não.

 

Eu já estava para perder a paciência e resolvia dar um basta naquele papo:

Quando aquela cidadã, toda entortada, começou a cruzar as pernas e lamentar:

 

--- “Nossa Senhora”! Aiaiai! Jesus!

 

--- Mas o que foi? Está passando mal? Perguntei.

 

---Eu esqueci que tomei três lactopurga e agora!? Tô frita!

 

Pensei, só pensei, mas não falei: Agora, você vai à merda...! Sua futiqueira... E continuei a minha caminhada.

 

Armando Melo de Castro