Corpo do capitão Leônidas Henrique Lannes (Reedição)
Candeias, na década de 50,
ficou marcada pelo dinamismo do jovem prefeito, Dr. José Pinto de Resende, que
era filho de outro ex-prefeito, o sr. João Pinto de Miranda. --- O Dr. José
Pinto de Resende era inteligente, muito instruído e honesto, mudou
completamente o perfil da nossa cidade. Abriu inúmeras ruas e fez terraplenagem
em vias desconsertadas. Entre os seus grandes feitos, três coisas importantes
aconteceram na sua gestão:
1) Início das obras de
calçamento da cidade;
2) Inauguração do Horto
Florestal;
3) Inauguração do Campo de
Aviação.
A cidade, até então, não tinha
ruas calçadas. Quando os carros passavam, deixavam rastros de poeira que faziam
as donas de casa sonharem com a possibilidade de um dia verem suas ruas pavimentadas.
Outros logradouros eram cheios de buracos onde um veículo não conseguia
circular. O mato nas ruas era tão comum que facilmente eram vistas cobras
soltas por ali. As casas da rua em que fui criado, ou seja, na Rua Coronel João
Afonso Lamounier (saída para a cidade de Formiga) eram todas da cor da poeira.
Era comum ver cavalos pastando e galinhas soltas pelas ruas.
O Dr. José Pinto de Resende
foi quem deu início ao calçamento das ruas de Candeias. Daí para frente, todos
os prefeitos participaram do processo de manutenção da cidade calçada. Sabe-se
que a pavimentação, em forma de paralelepípedo, deixa a cidade menos aquecida
em comparação às ruas asfaltadas. Com isso, aproveitou-se a grande reserva de
pedras existente no município, o que pode proporcionar, também, uma boa demanda
de mão de obra.
Outra importante realização do
prefeito, José Pinto, foi trazer para Candeias um horto florestal. Uma área
reservada para reproduzir espécimes vegetais e que ficava situado no espaço que
se destina, atualmente, ao Estádio do Rio Branco Esporte Clube e ao matadouro
municipal. Mudas de árvores variadas eram ali distribuídas gratuitamente. A
instituição era administrada por um engenheiro Agrônomo e um gerente que vieram
de fora, todavia, empregou-se um grande grupo de funcionários, principalmente
meninos no tempo em que não era proibido menino trabalhar. O Horto Florestal de
Candeias foi, durante o seu tempo, um ponto turístico que recebia a visita
constante de namorados e familiares. O fim desse horto é para mim desconhecido.
A terceira obra importante do prefeito
José Pinto foi o Campo de Aviação construído no Bairro da Parmalat e que
ocupava um grande espaço no qual se encontra instalada, nos dias de hoje, uma
indústria de tábua de granito bem como os eventos referentes às festas do tipo
exposição agropecuária.
O campo de aviação e o horto
florestal seriam inaugurados no mesmo dia. A previsão era de que seria uma
festa de grande repercussão. Pode-se, portanto, acreditar ter sido esta a maior
festa de todos os tempos anotada nas lembranças do povo candeense. --- Na parte da manhã, seria a inauguração do
campo com a presença de autoridades locais, regionais, estaduais e visitantes
das cidades vizinhas. Um palanque foi montado e a maior parte da população de
Candeias estava presente
Candeias é o berço de um
ilustre , da Força Aérea Brasileira, hoje aposentado, o coronel aviador, Renato
Paiva Lamounier, filho do Sr. Olinto Lamounier e da professora, Dona Eliza
Paiva Lamounier. O Coronel Renato é neto do Coronel João Afonso Lamounier, mais
um personagem ilustre da nossa história. --- Nunca esteve ausente de sua
Candeias. Sempre aparece, para ver os seus parentes e hospedar-se no Hotel
Fazenda Álamo. E sempre leva para o Rio de Janeiro, onde mora, as delícias de
nossa terra. O coronel Renato Paiva é um candeense detentor de um currículo
brilhante, por ter prestado relevantes serviços à nação brasileira, inclusive à Presidência da República como comandante
aviador do Presidente Ernesto Geisel.
Nesse tempo, Renato Paiva, era
cadete da Aeronáutica, e seria um futuro piloto da Esquadria da Fumaça.
Entretanto, em uma das visitas a Candeias o prefeito, José Pinto, procurou
saber dele se existia a possibilidade de conseguir a vinda à Candeias da Esquadrilha
da Fumaça, para a inauguração do campo. Renato disse-lhe que sim. Porém ele
teria que ir ao Rio de Janeiro e se encontrar com o comandante da Aeronáutica.
O prefeito candeense bastante
entusiasmado com a ideia, e acompanhado do deputado federal João Nogueira de
Resende, dirigiu-se ao Rio de janeiro, então a capital do país. E na Escola da
Aeronáutica, junto também ao cadete candeense, se encontraram com o comandante
daquela instituição ficando assim agendada a data de inauguração do campo com a
presença da Esquadria da Fumaça para o dia 18 de julho de 1958. Notícia esta que
veio trazer ao povo candeense grande alegria. As emoções de ver as acrobacias
dos aviões era um assunto que colocava muita gente em dúvida, o que aguçava a
mente de todos.
Tendo chegado o “Dia D”, logo
de manhã o campo de aviação a ser inaugurado encontrava-se lotado para ouvir os
discursos e a chegada da tão prometida Esquadrilha da Fumaça, prometida para as
9 horas daquela manhã.
E ela não chegou. Esse atraso
seria um fato anormal porque a esquadrilha teria já chegado a Campo Belo no dia
anterior e lá iriam pernoitar e aguardar o momento de vir para Candeias, tempo
que seria de apenas três minutos de Campo Belo a Candeias. E esse atraso causou
uma grande inquietação nas autoridades candeenses e no povo em geral. O meio de
comunicação em Candeias era precário; praticamente apenas pelos telegramas da estação
ferroviária. E por isso a notícia desastrosa demorou muito a chegar, abalando e
frustrando toda aquela expectativa do povo, não só de Candeias, como também de
cidades vizinhas. Afinal, a Esquadrilha da Fumaça era uma coisa nova, com
poucos anos de existência. E numa cidade de interior isso era muito raro. -
Ocorreu, todavia, que ao levantar
voo para se dirigir para Candeias, a uma velocidade de 400 quilômetros por hora,
o que não levaria mais de 3 minutos, o comandante, Capitão-aviador, Leônidas
Henrique Lannes, decidiu dar uma pequena apresentação para o povo de Campo
Belo, e nessa demonstração, o seu avião perdeu o controle e foi bater com a
ponta da asa na torre da Igreja Matriz em Construção e foi cair num terreno
onde morava a família do Sr. Clóvis Rios, atual esquina da Rua Ana Jacinto Rios
com a Rua Joaquim Murtinho. Morreram o piloto, comandante da Esquadrilha e duas crianças filhos do Sr. Clovis e Dona
Tereza Trindade. A notícia trouxe para Candeias uma grande comoção.
Os outros três aviões, durante
a festa de inauguração do campo, passaram timidamente pelos céus de Candeias
sob os nossos olhares tristonhos. Mas enquanto aqueles aparelhos sumiam nas
nuvens, com certeza, estava havendo uma reciprocidade de sentimentos quando o
nosso povo sentia uma grande tristeza e frustração, enquanto aqueles três aviadores voltavam as suas
origens com os corações partidos por deixarem para trás o seu companheiro e
comandante.
O capitão Leônidas Henrique
Lannes, era um homem tido como prudente e cauteloso que além de ser o
comandante da Esquadria era instrutor de voo de cadetes do ar, morto quando
teria vindo com o objetivo de alegrar o nosso povo. Esse acidente de
repercussão nacional foi, por muitos anos, lembrado pelo povo candeense num
sentimento de frustração por ter perdido uma oportunidade que nunca mais,
talvez, pudesse vir tê-la de novo. Mas como tudo não estaria perdido, o nosso
cadete, hoje, aposentado, coronel Renato Paiva Lamounier, nas suas vindas a
Candeias, em visita a sua mãe, vinha num desses aviões e sempre nos dava uma
mostra do que teria sido feito por quatro aviões num só momento. O avião
pilotado por ele subia como uma flecha e depois vinha cambalhotando, o que deixava
o povo da nossa cidade assustado e imaginando o que seria aquilo feito por
quatro aviões, como poderia ter sido feito na inauguração do noss campo.
Naquele momento não havia
clima para a festa de inauguração do horto Mas não havia como cancela-la.
Tratava-se da parte mais festejada das comemorações. Um consórcio de fazendeiros
teria proposto uma churrascada para todo o povo de Candeias. Diversas rezes
haviam sido abatidas para esse churrasco. Muito refrigerante estava pronto para
ser servido. Assim, apesar da frustação da nossa população, a inauguração do
horto, marcada para a parte da tarde, estava de pé, quando o povo já ia
diretamente do campo, para o horto, do outro lado da cidade.
Eu que já contava os meus 12
anos, não perdi um foco sequer dessa grande festa. De manhã sofremos, mas à
tarde carnívoro como é o ser humano, deu-se um branco na cabeça de todo o mundo,
sobre a ausência da Esquadrilha da Fumaça. Carne e refrigerante à vontade. Cerveja
eu não me lembro se existia, eu não bebia nesse tempo, mas refrigerante... Meu
pai! Eu jamais vira tanta fartura. --- Para o churrasco foram abertas várias
valas onde grandes espetos eram expostos. O povo comia, levava para o parente
de casa, e apanhava no chão para levar para o cachorro.
A coisa mais injusta sobre a
vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está
todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.
(Chaplin)
NB) Neste texto eu fui
auxiliado pelo meu amigo, Coronel Renato Paiva Lamounier, que me falou sobre a
Esquadrilha da Fumaça. Mas a festa frustrada do campo, e a alegria no horto
florestal, eu estive o tempo todo presente, e teria muito mais o que falar...
Muito mais!
Armando Melo de Castro
12 comentários:

Giuliano de Souza disse...
Está é a Memória de CANDEIAS!
Nunca soube disso!
Ainda bem que alguém a contou e a eternizou.
"A importância da escrita para a história e para a conservação de
registros vem do fato de que estes permitem o armazenamento e a propagação de
informações não só entre indivíduos, mas também por gerações"
Nota: Gostei da data, 18 de julho de 1958, exatamente 30 anos após eu sentaria
praça na Marinha Brasileira, 18 de julho de 1988...
5 de setembro de 2012 18:34 

Giuliano de Souza disse...
Está é a Memória de CANDEIAS!
Nunca soube disso!
Ainda bem que alguém a contou e a eternizou.
"A importância da escrita para a história e para a conservação de
registros vem do fato de que estes permitem o armazenamento e a propagação de
informações não só entre indivíduos, mas também por gerações"
Nota: Gostei da data, 18 de julho de 1958, exatamente 30 anos após eu sentaria
praça na Marinha Brasileira, 18 de julho de 1988...
5 de setembro de 2012 18:36 

josefina disse...
estive lá.
22 de janeiro de 2013 13:21 

Anônimo disse...
Pois eu morava em Campo Belo nessa época justamente na rua
onde caiu o avião. De fato, o avião bateu na torre da nova matriz e se
espatifou a menos de 50 metros de minha casa. Como eu era uma pequena criança
corri para me esconder debaixo da cama, mas sem antes subir no terraço de minha
casa para ver o alvoroço causado pelo acidente. Vai que caísse outro ...
Gambogi
6 de janeiro de 2015 22:26 

Anônimo disse...
Olá, obrigado a quem fez esta matéria, pois só quem viu e
esteve no local ou arredores pode realmente detalhar com fidedignidade.
Gostaria de que por favor disponibilizassem fotos ou imagens deste acidente
para que eu possa conhecer mais a fundo o ocorrido do Lannes.
Qualquer coisa, enviar para este email: demontiervieira@hotmail.com
5 de abril de 2015 20:30 

Mário Moreira de Resende disse...
Que fato triste que passara o povo da região nesta época,
mas fico satisfeito em saber hoje desta história, embora triste porém rica em
detalhes, mais uma para eu contar para os meus filhos.. Obrigado Armando.
1 de junho de 2015 18:23 

Unknown disse...
"Me lembro muito bem daquele fatídico dia. Não era
igreja em construção. Ele bateu na torre da nova Matriz, e parte da asa caiu na
porta da nossa casa, passando bem rente ao teto do nosso banheiro onde, no
momento eu tomava banho. Em seguida caiu no quintal de Tereza......(me esqueci
o sobrenome) ceifando também a vida de 2 crianças desta senhora,"
comentário de minha prima Theresinha filha do tio Antonio Machado Alvarenga.
11 de setembro de 2016 17:53 

hilton disse...
Parabéns ao autor do blog pelo registro que abrange a
tragédia com o avião da FAB pilotado pelo Capitão Leônidas. Minha família
mudou-se de Campo Belo para Brasília no final de 1959 e nunca mais ouvira
relatos precisos do acontecimento que marcou minha infância/juventude (sou de
1945). Caminhava nas proximidades da nova matriz, estava maravilhado com os
aviões e pude ver o acidente de perto. O avião esbarrou na cúpula da Igreja,
descontrolou-se, passou próxima da casa do meu tio Antonio Machado e espatifou-se
mais adiante! Foi terrível!
Em família, cheguei a tocar no assunto, mas sem lembrar os dados precisos (a
data exata). Pensava até que a apresentação da Esquadrilha teria sido no
aniversário de Campo Belo – 28 de setembro - e também não lembrava o ano do
acontecimento.
Minha mãe – a dona Nega – é candeense e aos 93 não lembra do acontecido. Meu
pai – Anésio - lembra, mas achava que a data era anterior ao 18/julho/1958.
Congratulo-me com a minha prima Terezinha (filha do Tio Antonio) por
informar-nos sobre o BLOG.
Hilton M. Ferreira
12 de setembro de 2016 03:40 

peathon disse...
Gostei muito do artigo, queria saber a data em que minhas
primas haviam falecido naquele acidente, na época eu tinha pouco mais de um
ano, agradeço pela informação.
13 de novembro de 2017 10:43 

Edson disse...
A matéria acrescentou muito para minhas pesquisas sobre a
FAB, aviões e acidentes.
Li que o Museu da cidade de Campo Belo ou Candeias mantem em seus acervos fotos
sobre o avião acidentado.Interessa-me saber o número de matrícula da aeronave
T-6D sinistrada?
Alguém ajudaria?
Atenciosamente,
Edson Pom
30 de abril de 2018 15:32 

Unknown disse...
Não tinha conhecimento desse fato ocorrido em Candeias,
muito bom receber notícias de nossa terra,nos trás muitas lembranças de nossa
juventude.
14 de agosto de 2019 16:58 

Anônimo disse...
Bom dia, Edson Pom!
Também pesquiso sobre acidentes da FAB (data, matrícula FAB, tripulação, mortos,
local, etc). Estou fazendo também uma lista de todas as aeronaves da FAB desde
a criação do Ministério em 1941, com informações de acidentes e de monumentos.
Poderíamos trocar informações para enriquecer nossas pesquisas. Meu contato é
(51)99500-0427. Fort