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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

ERA UMA VEZ EM CANDEIAS...

Cine Circulo Operário São José
 A história do cinema é bastante interessante. Trata-se de uma invenção que, apesar de ter tido a contribuição de muitas pessoas, foi consagrada aos dois irmãos franceses, Louis e Auguste Lumieré.

 Em 28 de dezembro de 1895, eles conseguiram realizar a primeira exibição pública sob o pagamento de ingresso. Era uma série de dez filmes com duração de 50 segundos cada. Os rolos de fitas tinham apenas quinze metros de comprimento. Desses dez filmes, o primeiro a ser exibido foi o da chegada de um trem em uma estação. E o título deste filme diz, exatamente, aquilo que o filme apresentava, ou seja, “A Chegada do Trem na Estação Ciotat.”.
 A invenção do cinema foi possível a partir do nitrato de celulose descoberto em 1846 pelo químico alemão, Christian Frie-drich.

No princípio do cinema, os filmes eram mudos. A idéia de colocar a voz nos personagens dos filmes era bem remota e quando isso aconteceu foi um feito surpreendente. Havia sim a legenda que traduzia de forma reduzida o que os atores deveriam falar. Esses, também, usavam a expressão corporal para traduzir o enredo da história. Antes, contudo, era completamente mudo, mas, posteriormente, já havia um som precário que acompanhava a película.
 Normalmente, o espetáculo era abrilhantado por um músico ao piano. Esse cinema precário durou mais de trinta anos.

Tendo em vista as dificuldades encontradas pelos primeiros a projetar um filme, uma vez que os investimentos eram altos demais, o interesse acabou caindo nas mãos dos americanos que revelavam a sua vocação sobre o cinema de uma forma menos elitista como a dos franceses.
Os primeiros filmes eram exibidos nas feiras e nos eventos festivos, com o fito de conquistar as platéias de salas fechadas. Em 1912, deu-se início à grande indústria cinematográfica de Hollywood. E os norte-americanos já fizeram do cinema mudo atores como Charlie Chaplin, Harold Lloyd, Buster Keaton bem como Oliver Hardy e Stan Laurel que viveram a grande era do Gordo e o Magro . (Resumo de pesquisa na internet)
O Gordo e o Magro
 Em Candeias, o primeiro cinema existente, ainda no tempo do cinema mudo, era de propriedade da Família Bonaccorsi e ficava localizado onde, atualmente, reside a professora, Maria do Carmo Bonaccorsi, pois, o cinema havia sido idealizado pela sua avó, Dona Guilhermina Bonaccorsi, esposa do senhor Celestino Bonaccorsi, o grande patriarca da Família Bonaccorsi que tanto fez pela história de Candeias e ainda faz, através de seus descendentes.
Com o advento do cinema sonoro, já na década de 40, foi criado o Cine Círculo Operário São José. Uma iniciativa do Monsenhor Joaquim de Castro. Foi fundada uma associação em que os operários, como sócios, pagavam uma mensalidade que lhes dava o direito de frequentar o cinema, ainda bastante precário, mesmo porque, sendo já o cinema falado, ainda existia muito filme mudo. O círculo operário tinha um convênio com os donos do cinema de Campo Belo e, assim, os filmes exibidos lá eram, posteriormente, conduzidos para Candeias. O responsável pelo cinema em Candeias era um senhor chamado Onofre. E, quando este saía pelas ruas, fazia a propaganda no corpo a corpo.

A sala era bem menor daquela existente hoje.
Por volta do ano de 1954, foi dado o fim ao círculo operário. Assim, Padre Joaquim, homem rico, resolveu construir um cinema que foi, sem dúvida, o melhor cinema da região. Suas máquinas de projeção eram de ultima geração, inclusive, a tela era a maior de todos os cinemas de Minas Gerais e havia poucas iguais no país. Lembro-me, como se hoje fosse, o dia da estréia desse grande evento candeense. O filme chamava-se “O homem do Terno Cinzento” estrelado por Gregory Peck. Isso aconteceu no dia 1º de Maio de 1955, Dia do Trabalho, e o ingresso especial foi vendido com antecedência, no valor de Cr$ 30,00 (trinta cruzeiros). Com direito ao discurso do Padre Joaquim que, bastante empolgado, entregou à sociedade candeense aquele raro empreendimento, naquela época, em que o cinema atravessava os seus melhores dias. Houve quem colocou terno e gravata para ir a essa inauguração.

Eu contava com os meus nove anos de idade e estava na matinê daquele dia, bem na fila da frente, junto aos meus contemporâneos e condiscípulos da escola e do catecismo para assistir ao filme do Gordo e o Magro e o primeiro capítulo do seriado Rin-tin-tin. Nessa estreia, a garotada entrou de graça e foi a maior festa.

A grande sala do Cine Círculo Operário São José não era utilizada apenas para cinema. Era um centro de convenções na qual se desenvolvia a arte teatral, festas de formaturas, encontros políticos e shows de artistas famosos, cantores e atores das rádio-novelas (não havia televisão, naquele tempo). Lembro-me ainda quando estiveram, em Candeias , Luiz Gonzaga, Cascatinha e Inhana, Anísio Silva, Mario Zan, Tonico e Tinoco e muitos outros astros da música, como também, Violeta Ferraz, Zé Trindade, Renato Restier, e mais outros atores do cinema brasileiro. Naquele tempo, não havia essa badalação vista hoje pelos artistas de televisão. Pagava-se o preço da entrada de cinema para vê-los ao vivo no palco do cinema. E, comumente, atores menos famosos, vinham trazendo o filme como forma de divulgação e o próprio ator ficava na portaria para ser visto pelos frequentadores. Lembro-me de que em uma oportunidade dessas esteve, em Candeias, promovendo um filme em que tivera participação o excêntrico, Pedro de Lara, quando ainda muito jovem.

Com o advento e o desenvolvimento da televisão, as salas de cinema entraram em decadência e o nosso cinema não teria como ser poupado. Foi morrendo aos poucos.  A exibição, de até duas sessões aos sábados e domingos, dependendo dos filmes, passou para apenas uma. Depois de algum tempo, as sessões diárias passaram a três vezes, por semana, vindo, posteriormente, a ser somente aos sábados e domingos e, finalmente, fechado.

O Cine Círculo Operário São José está guardado nos corações de muitos candeenses e, com certeza, com uma ênfase maior no meu coração saudosista. Foram ali as minhas primeiras grandes emoções. Foi através de sua tela que eu tive o primeiro encontro com o mundo além de Candeias. Foi ali que eu conheci um carro de luxo, um telefone e uma casa suntuosa. Foi ali que eu pude ver na minha adolescência as mulheres mais bonitas do mundo. Talvez, ali, tenha dado deliciosos beijos no escurinho gostoso e, quem sabe, até encontrado o meu tão desejado recheio de sutiã. Tive, também, a alegria de atuar em teatro junto ao Grupo Teatral Monsenhor Castro. Ali, aos catorze anos, cantei em dueto com o meu pai ao bandolim, a famosa valsa do maestro, Belmiro Costa, feita para os seresteiros candeenses.

Depois de vários anos, silencioso, guardando a saudade de muitos, o Cine São José está sendo reformado. À porta do prédio, um monte de entulho que será jogado fora junto com a minha saudade.

Eu fico feliz por saber disso. É como se ressuscitasse algo que morreu, mas que voltará de cara nova. Pouca coisa, além do nome, vai sobrar. Eu fico só imaginando o momento em que eu voltar a adentrar no meu querido Cine São José. Não verei mais a Dona Maroca com a sua filha, Zulma, na lanchonete anexa ao cinema. O Chiquinho não estará mais com a sua carroça transportando as latas de filmes e nem o Antonio do Sr. Nico estará mais olhando lá de cima, da cabine das máquinas, a plateia, cá em baixo.  Na bilheteria, não estará mais a Iraní do Chico Freire. Na portaria, a ausência do Sebastião Salviando, chamando-me carinhosamente de: “Armando Velarde.” Na plateia, não verei mais o gerente do cinema, Sr. Nicodemos Salviano rodeado pelos seus familiares, nas poltronas dos fundos. Ao meu lado, não estará mais o meu querido pai, Zé Delminda. E nas poltronas, perto de mim, como que em cadeiras cativas, não estarão mais o Gabriel Carlos, o Alvino Ferreira, o Edson Cordeiro, o Paulo Pessoa e sua esposa, Dona Carmem. O Vicente Vilela com o seu irmão, Paulo. O Lico do Matadouro, o Ari Ferreira, o Geraldo da Prefeitura, o Zé Pacheco Lopes, o Domiciano e seu irmão, Miguel Pacheco.  Do lado oposto, vejo o Olinto Langsdorff e sua mãe. A Dona Elisa Paiva e sua irmã, Julieta. A Enir Parreira e o Antonio, seu irmão. O Zé Canarinho, o Bóvio Riani. O Miguel Lara. O Nestor Lamounier. O Hamilton do Dr. Zoroastro. O Alvim do Vico Teixeira.  Outros mais que, apenas no momento, me falha a memória. Parece que toda a nação candeense frequentava o cinema. E um fato inusitado era observado. O Mário Rigali, italiano, dono do Bar Piloto, acompanhado de sua esposa, dona Elza e sua filha Iara, levavam o seu cachorro ao cinema. Um vira-lata bem domesticado, de cor branca com manchas cinza bem cuidado e bem gordo. Assistia, junto aos seus donos, ao filme. Ficava assentado com disciplina em sua poltrona pela qual o ingresso era pago.

No corredor horizontal, ao meio da plateia, ficava o Monsenhor Joaquim de Castro junto aos seus coroinhas e sacristãos. Essa presença simbolizava o respeito total, mesmo porque, se alguma anomalia ocorresse, as luzes seriam acesas e o sermão seria dado.

Apesar de entender que vivemos hoje dias melhores, eu tenho muita saudade daquele tempo. Não era um tempo melhor. Mas,  era o meu tempo. E o nosso tempo é o verde dos anos.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos





2 comentários:

Márcio Lamounier disse...

Armando, como sempre belas histórias são contadas por vc. Parabéns e obrigado por nos dar esse prazer de relembrar do passado de nossa querida Candeias.

Marina disse...

Com certeza eu estava em uma das cadeiras... meninota... quem sabe? Fui muito `{as matinês do Cine São Jose... levava nos bolso pêssegos roubados na horta de Lenir Lamounier... será que era mesmo eese nome?