CANDEIAS-MG: Casos e acasos

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quarta-feira, 15 de maio de 2013

O CONTADOR DE PIADAS.


Na década de 50 Candeias servia-se da eletricidade fornecida pela Empresa Força e Luz Candeense, de propriedade do Sr. Celestino Bonaccorsi. --- Essa usina, já bastante antiga e sem nenhum investimento estava constantemente dando problemas, quando deixava a cidade no escuro por até mais de 15 dias, naturalmente voltada aos tempos da lamparina. ---  E numa dessas crises, chega um circo de cavalinhos desses do tipo mixuruca. Não continha bons números variados e a melhor atração era o palhaço. Quando um circo tinha uma situação sólida, trazia consigo um motor gerador de energia para um caso desses, mas esse ai não teve saída a não ser esperar a energia voltar e nunca se sabia quando.

E esse circo que já chegou perdendo o folego financeiro, viu a sua situação agravar tanto que de uma só vez levou a sua companhia abandona-lo e voltar para as suas origens. Ficara apenas o palhaço, preso por laços de amizade com o proprietário, e por ter o pai que o acompanhava pelo mundo, idoso e doente. Até que ele, o palhaço, do mesmo modo, vendeu o seu rádio “rabo quente” para o meu tio Wantuil Delminda e regressou à sua terra no interior de São Paulo. Após a partida do palhaço, que era a melhor atração do circo, o proprietário do itinerante ficou de pernas e mãos atadas. Assim, a sua companhia se resumiu numa irmã, dois filhos adolescentes, um cunhado domador de cachorros e a sua esposa, uma mulher realmente bonita e que tinha um

corpo de chamar a atenção. ---- Com a aquela história que a luz vem hoje ou vem amanhã, a situação deles foram se agravando.

 A irmã do dono, que era uma balzaquiana pra piscar o olho, encanou a sua perna com o Dite Freire, que era meio tarado com as mulheres de circos e ciganos que se armavam ali na Praça Antônio Furtado. Ele estava sempre beirando essas mulheres e às vezes saia contando as vantagens, os preços, mas nunca contava onde teria sido a alcova ou o leito de onde teria acontecido a barganha com a laranja, os  gritinhos e os gemidinhos...

 Enfim, a luz voltou vinte dias depois.

Esta soca da companhia não era de artistas eram apenas participantes do espetáculo. e ele que era o “escada” do palhaço daí então, se transformou, às pressas, em um palhaço sem graça tendo por escada a sua própria esposa.  Os seus dois filhos, ainda adolescentes e inexperientes, faziam, precariamente, uma apresentação improvisada sem nenhuma atração. ---  Outro número que ainda restou foi o do domador de animais que era seu cunhado, consequentemente, da família e que fazia uma apresentação com os cachorrinhos, formando dois times de futebol, sempre vestindo camisas de times variados. Realmente, essa era a única atração que interessava a uns poucos expectadores. E como a situação financeira do circo deixava a vida dos cachorrinhos periclitante, não faltava quem ajudasse na alimentação dos animais. Os açougueiros davam pontas de carnes e supunha-se que o pessoal do circo se tornava convidados dos cachorros. Aliás, num tempo de carne barata era comum os açougueiros dar pontas de carne para os animais

O dono do circo, que de artista nada tinha, teria sido um aventureiro que saiu do interior de São Paulo, após comprar esse circo de um proprietário idoso sem filhos que tivera que abandonar o ramo por ter sido falecida a sua esposa. Esse proprietário aventureiro teria saido pelo mundo, vindo parar em Candeias. 

O circo que antes não era bom quase sem atrações, agora teria ficado pior.  A verdade é que era uma plateia minguada, composta, em sua maioria, pelo sexo masculino e que ia ao espetáculo apenas para ver a sua esposa de maiô. A coroa era, realmente, muito bonita e em uma cidade sem piscina, sem praça de esporte, sem mar, e naquele tempo, bem atrasada, ver uma mulher de maiô era somente em um circo. E a turma babava assistindo, ao vivo, àquela cena que apenas se via nas telas dos cinemas. E o pobre dono do circo, sem alternativas, presenciava a sua mulher ser chamada de “avião gostoso” "trem bão" " quanto quer" sem poder falar nada.

Na ânsia de atrair algum expectador, em prol da própria sobrevivência, o proprietário circense já não tinha mais o que inventar, portanto, fez-se a tentativa de montar espetáculos com recursos gratuitos da cidade: foi luta de boxe, em um ringue improvisado; foi luta livre; ( Nisso eu me lembro do Dico do Josias, quando ele levou um soco no rosto que saiu todo ensaguentado) Com essa sena acabou esse tipo de atração. --- Dai surgiu o programa de calouro, orquestrado por músicos da cidade que colaboravam com o modesto coliseu. Nisso eu me lembro de uma tal de Ivanilda, que quando ela começava a cantar a plateia caia na gargalhada, de  tão desafinada que era. 

Finalmente, ele resolveu fazer um concurso de piadas e convocou a se inscreverem pessoas da cidade para contá-las. Havia, todavia, uma importante recomendação de que nas anedotas não poderiam conter palavrões. Seriam apenas piadas de salão que pudessem ser entendidas por crianças, jovens, moças e senhoras. Não, poderia, consequentemente, faltar com o respeito ao público.

Balbino, o cortador de pedras que já foi personagem de um caso contado neste blog, DOCE DE BICHO DE GOIABA, se inscreveu para contar suas piadas no dia do espetáculo marcado.

Não existia qualquer assistente nas arquibancadas. A assistência presente se limitava a um preço único que era promocional para as cadeiras que rodeavam o picadeiro. O concurso de piadas ia, até então, muito mal, não causando tanto interesse na plateia. Afinal, piada para ser engraçada tem que ter malícia, palavrão e tudo que retrata coisas proibidas de falar. Poucos são aqueles que conseguem fazer um humor sem maldade. Finalmente, chegou a vez do Balbino:

Logo, na hora “H”, ele é chamado ao picadeiro e se apresenta todo sorridente, como se fosse um arlequim famoso, mostrando as suas presas superiores e o céu aberto da sua boca. Ele não possuía os dentes da frente, o que deixava à vista a vermelhidão de sua úvula palatina, sem nenhum exagero.

Começa o Balbino:

--- Oh, Gente! Buanoiti! No dia qui eu iscutei essa piada, eu ri até fazê xixi nas carça. Daí, eu passei a contá ela pusôto. No dia  qui eu contei pu Gerardo Dorcilino, pur pouco, ele num feiz cocô nas carça. Ele arriu, arriu, arriu, até num querê mais. É uma piadinha boba, mais, ela é bem ingraçada. Eu quero oferecê ela pus vereadô da cidade que gosta de gozá os rocero. E quem pensa que rocero é bobo, tá inganado
.
A piada é assim:

 Um cabôco ganhô a eleição de vereadô e ficô mitido dimais da conta. Ele tinha um carro, aí, arrumô um mutorista particulá pá dá un’has vorta pas roça afora. Sentou atrais no carro, como se fosse o Presidente do Brasir ou um deputado famoso. Ele era mitido dimais, sô. Mais dimais memo.

Quando foi passano perto de uma roça de mio, viu um véio capinano num solão danado de quente. Ele que divia ficá cum dó do véio, mandô pará o carro, abriu a ginela do carro e gritô:

--Oh, caipira! Prá dondé qui eu vô, fica longe?

E daí, o pobre do véio incostou no cabo da inchada, pensô, pensô e falô prele:

---Óia, moço! Aí, vai dependê, sô. Se ocê tá indo vê aquela vaca que te pois no mundo,  já ficô lááá atrais; --- Se tá indo atrais daquilo que todo mundo joga na privada, tá lááá na frente; agor’a se ocê tá quereno levá no trasêro no lugá que a galinha toma,  é aqui no meu colo, uai.


E ninguém riu. Ninguém achou graça. Ninguém entendeu o sentido da piada e, assim, Balbino apelou:

--- Uai parece qui ninguém achô graça, sô! Tamém a gente contá piada sem podê falá:  vá pá puta que te pariu,  vá pá merda e vá tomá no rabo... Não dá né...Aí, ninguém ri, uai. E a gente fica com cara de fejão sem sale.

Assim que ele disse isso a turma caiu na risada e não parava de rir. Agora ele teria sido muito, muito engraçado.

 

Finalmente, foram todos embora. O circo ficou abandonado por muito tempo. Até que um dia foi levado embora. Lembro-me de Dona Fina Teixeira, com a voz embargada dizendo: “Como é triste a vida de artista”.

 

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

 


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terça-feira, 30 de abril de 2013

COM FOGO NAS HEMORRÓIDAS.

Posto de Higiene - Candeias Minas (Foto Clara Borges)

Na década de 50 o sistema de saúde em Candeias era extremamente debilitado. Não que fosse por incompetência dos únicos médicos que por aqui existiam, Dr. Zoroastro Marques da Silva e Dr. Renato Vieira Na realidade, eles faziam o que podiam. O problema era a falta de recursos da época, o que lhes impediam de fazer um trabalho eficiente.

 Em virtude de tanta precariedade, o povo daquela época era um tanto conformado com a sorte. Já sabia que, com a chegada da velhice, sofreria com alguma doença até a morte e isso era uma sina. Muitos nem procuravam recursos, se viravam atrás de curadores, raizeiros, chás e benzedores.

 A mortalidade infantil era alta e constante. Comumente, via-se um enterro de criança, chamado enterro de anjo, com aquelas laterais do caixão abertas em que se via o pequeno defunto lá dentro. No Cemitério São Francisco , a esquerda de quem entra, era um canto destinado ao enterro de crianças. ---- Não existiam essas aposentadorias de hoje. ---- As pessoas idosas, quando não aguentavam mais, passavam a viver a expensas dos filhos; de parentes ou na Vila Vicentina, quando não acabava de porta em porta pedindo esmolas.

 E é por isso que até hoje existe o preconceito sobre o fato de ter parentes naquela instituição, apesar de não ter nada mais a ver com o passado. A Vila Vicentina de Candeias hoje é um motivo de orgulho para aqueles que a administram. Eu, no passado, fui voluntário por lá e posso fazer uma avaliação do quanto a Vila Vicentina de Candeias melhorou. Hoje, as pessoas vivem com dignidade e conforto. No passado, era tudo muito pobre, sem quaisquer recursos quando havia muita gente para ocupar o espaço.

Dr. Zoroastro Marques da Silva, era o chefe do posto de saúde daquela época. Aliás, não era chamado posto de saúde e sim    Posto de Higiene. Infelizmente, se tratava de um local desprovido de equipamentos dos quais uma equipe médica teria necessidade para o melhor desempenho do seu labor. O posto se dispunha apenas de muita boa vontade da equipe de servidores. Os recursos eram mínimos. O laboratório de análises clínicas era, igualmente, precário como também o serviço odontológico destinado quase que apenas para as extrações de dentes. Parece que a prioridade do governo, naquele tempo, era a vacina contra a varíola e a verminose. As vacinas para outras doenças não existiam. Quando o caso era mais grave, o paciente era levado para a Santa Casa de Misericórdia São Vicente de Paulo, na cidade de Campo Belo, de onde voltava morto ou, raramente, recuperado.

Dr. Renato, quando chamado, visitava as casas onde houvesse um doente. Nunca explorou ninguém. Cobrava uma consulta em visita à residência, quase o mesmo preço que cobrava em seu consultório e não era esses preços abusivos por uma consulta nos dias de hoje. Entretanto, dada à falta de dinheiro, as pessoas o chamavam quando a morte já rondava pela porta. Lembro-me que ele tinha um carro da marca Dodge, cor verde. Quando aquele carro se encontrava parado à porta de alguém, já surgiam os comentários da vizinhança: “Será que fulano escapa?!”.

E por falar no Dr. Renato, pousa, em minha memória, um fato que aconteceu no seu consultório.

Numa velha casa que existia na esquina da Praça Antônio Furtado com o Beco Belmiro Costa, morava Dona Iolanda com uma de suas filhas. Viúva, na beirada dos oitenta anos de idade; estatura baixa, magra, enrugada, cabelos brancos com penteado de coque; cara fechada e voz Forte. Tinha o vocabulário solto nas melhores traduções chula. ---- Minha avó, Olinda, era amiga dela e eu sempre a acompanhava nas suas visitinhas, pois eram vizinhas.

Dona Iolanda tinha uma dentadura com um dente quebrado, e a gengiva dessa prótese, daquele tempo atrasado, era vermelhada. Então quando ela raramente resolvia soltar um sorriso a dentadura folgava querendo se soltar da boca e ela se protegia com a mão. Aquilo me deixava impressionado, pois eu ainda não entendia bem de dentaduras, ou seja, de próteses dentárias.

Dona Iolanda apareceu incomodada com uma terrível crise de hemorroidas. Apesar de sua filha querer leva-la ao Posto do Dr. Zoroastro ou no Dr. Renato, ele não quis ir, preferiu procurar primeiro os tratamentos alternativos, pois a primeira coisa que um médico iria fazer seria manda-la tirar a calcinha para olhar o seu botão. Pois isso só aconteceria num ultimo caso. Eu tenho vergonha. Dissera para a minha avó quando tentava convencê-la que deveria ir ao médico. ----

Já teria se submetido a todos os tratamentos com chás de raízes através das indicações da vizinhança cujas hemorroidas de Dona Iolanda já estava mais do que faladas. Já teria se consultado com o então famoso curador, Chico Viriço... Benzedeiras e até o tal de Joaquim Fortunato, um bruxo que morava lá pelos fundos da cidade, teria sido procurado. E nada, nadinha, teria resolvido. Enfim, a saída foi procurar o Dr. Renato.

Dona Iolanda já andava pensando um punhado de bobagens e rezava dia e noite. Fez diversas promessas para Nossa Senhora das Dores para que não fosse uma vítima de um câncer, o que para ela era a chamada de “doença ruim”.

Não era praxe marcar uma consulta com o Dr. Renato. Ele não possuía uma secretária. À medida que o paciente chegasse, ia sendo atendido. Havia dias em que a pequena sala de espera de seu consultório estivesse cheia, mas nem sempre. Ele após atender o cliente, vinha trazê-lo até à porta e perguntava quem seria o próximo. ---- Dessa maneira, Dona Iolanda chega com a sua filha e se permanece de pé, pois não estaria dando conta de ficar assentada, quando o Dr. Renato sai de sua sala e diz no seu sotaque bastante próprio:

---Está tudo bem, por aqui? Tem alguém se sentindo mal que precisa ser atendido com preferência. Caso tenha, os demais não vão se importar de passar à frente.

Nesse momento, Dona Iolanda diz esperta:

---- Eu dotôr! Eu num tô guentano nem sentá!  A minha murroida parece até que vai pegá fogo. Se eu pudé... intrá na frente?

 Ninguém se opôs a entrada de Dona Iolanda à frente. Dai quando ela volta alguém lhe pergunta: O que ouve Dona Iolanda

 --- Que humilhação minha fia... Vô tê qui ir im campo Belo, ele falou que isso deve sê um ispinho dum diabo dum pexe que nóis cumeu lá incasa... Mardito pexe ele istrepou o meu butão.

 Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos



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domingo, 21 de abril de 2013

O VELHO SAFADO.


Foto para ilustrar o texto.
Na minha adolescência, conheci um candeense cujo comportamento lhe daria o adjetivo de safado, ou melhor, de safadão. Para as pessoas que gostam de colocar as palavras no diminutivo, uma característica dos membros da família Alvarenga, por exemplo, ele, com certeza, seria chamado de safadinho. Tinha, mais ou menos, setenta anos de idade, do tipo manguarão, pescoço comprido, uma boca grande apresentando uma dentadura que exaltava os dotes profissionais do dentista, Boanerges Pacheco, feitas em uma única forma. Possuía o cabelo branco, cortado à moda Príncipe Danilo além de uma voz mole que dava a aparência de pensar palavra por palavra sobre o que ia falar. Creio que seu nome deveria ser Alexandre, mas, todo mundo o tratava e o conhecia por Xande. Quando ele vinha ao encontro de uma turma, as pessoas já se preparavam para identificá-lo: - “Lá vem o velho safado!

Chamava todo mundo de "bem" ou de "menino" fosse homem ou mulher. As mulheres nunca conversavam com ele porque se assim fizessem, levavam na cara certos elogios que as deixavam envergonhadas ao extremo. Fosse velha ou fosse nova, fosse criança ou adolescente, o tema das suas conversas era sempre considerado indecente.

Se a mulher fosse velha, ele, descaradamente, dizia:

--- Ocê ainda dá uma brincadeira boa, meu bem! Galinha véia dá cardo grosso! E como dá! Cê guenta muito bem uma meia sola, sô! Ocê, minha fia, dá uma requenta de bacaiau muito boa que dá pá inchê o pandu até num querê mais.

Se era um tipo balzaquiana, ele diria com a cara mais lambida:

--- Sá sinhora, minha fia do céu! Ocê tá cuma tanajura apititosa dimais, sô! Agora que intendi purque qui o zôto fala qui come tanajura. Ocê prá mim é uma janta de natal, daquelas qui a gente vai cumeno, cumeno até dá indigistan.

Se a mulher era uma mocinha nova, uma adolescente, aí fazia um comentário sucinto:

--- Êh, minina, ocê tá do jeito que eu penso! Deve tá iguar uma ispiguinha de mio verde discascada. Cabilim marilim. Inda num pode cumê purque num granô direito.

O seu grande amigo de conversa e de safadeza era o Dé Cassiano. Eles estavam sempre conversando. Comumente, eram vistos em um banco da praça, em frente ao Bar Piloto. E para cada mulher que passava, eles tinham um comentário a fazer. Despiam-nas em pensamento, imaginavam-nas ensaboadas, tomadas e penetradas, totalmente isentas de vestes e pudor. Xande dava tanta ênfase ao assunto e parecia até que iria sentir um orgasmo imaginário. O que fazia muita gente crer se tratar de um tarado. Mas, nunca passou de pura conversa. Nunca se teve notícia de que tivesse passado da conta com alguma mulher.

Dentre os poucos homossexuais que havia em Candeias, naquele tempo, Renê nunca escondeu isso de ninguém. Todo mundo sabia disso e o aceitava em virtude da sua lealdade consigo mesmo porque, desde criança, expunha não uma opção sexual como muitos dizem, mas sim, a sua condição sexual. Ele dizia que era homossexual porque se sentia assim e não porque teria optado para isso. Afinal, essa condição lhe custava certos problemas, inclusive, dentro da própria família e ele sempre as encarou sem escândalos, sem brigas e com muita dignidade.

Estávamos no carnaval de 1961 e Renê era um grande animador da folia em Candeias. Sempre inventava uma fantasia inteligente. Naquele ano, ele retratou o cosmonauta russo, Iuri Gagarin o primeiro homem a viajar pelo universo em uma espaçonave. Era o assunto do momento. O mundo se preparava para assistir à primeira missão espacial tripulada da história.

Renê fez a sua fantasia demonstrando, sucintamente, as vestes de Gagarin: um macacão de astronauta. E para uma ênfase maior, usou um capacete como uma pequena réplica da espaçonave com as suas antenas o que lhe dava uma aparência de quem portava enormes cornos.
 Empanado naquela alegoria, Renê desce a avenida e, ao passar em frente ao Bar Piloto, cai sobre os olhos da dupla de comentaristas indiscretos: Xande e Dé Cassiano:
 Sabendo que iria temperar o angu daquela panela que fermentava a vida alheia, Renê parou de repente, deu uma rabanada feito um pavão enfeitado ou de um ganso que saiu da água e seguiu o seu caminho ficando a mercê do julgamento daqueles juízes carnavalescos.

---Minino do céu!? Cê viu, Dé? O que qui é isso, criatura?

---Esse é aquele fio do Chico de Assis, o Renê.

---O que qui é aquilo na cabeça dele? Tá pareceno chifre! Tá doido, sô?! Tá iscambado dimais da conta, uai!

----Uai, Xande, com esse trem na cabeça, tá pareceno que ele reganhô de veis.

----Ocê parece, Dé, que porva dessas  fruta encaroçada?

----Cê é doido, Xande! Fruta que dá no esgôto é veneno. No meu cardápio, eu prifiro um den de aio, ou intão, um pastilinho.

Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos


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quinta-feira, 11 de abril de 2013

O FENÔMENO CANDEENSE.

O livro de Eclesiástico do Velho Testamento da Bíblia Católica é um dos sete livros que não estão inclusos na Bíblia Protestante. Por serem considerados, pelos judeus da palestina, como livros não inspirados pelo Espírito Santo, eles foram renegados pelos evangélicos. Contudo, o Eclesiástico trata-se de um livro reconhecido no judaísmo pelas suas reflexões e o valor histórico, apesar de não ser compendiado como um livro sagrado da religião judaica.

Escrito há duzentos anos antes de Cristo, nos faz refletir, em seu capitulo 29, sobre um assunto que se encontra em evidencia nos dias de hoje: "O mau pagador”.

Dívida é aquilo que se deve. Quem deve tem o dever de pagar dentro do compromisso firmado, seja verbal ou escrito. Os maus pagadores estão classificados em vários tipos. Existem aqueles que não pagam, simplesmente, porque não gostam de pagar. Mesmo possuindo a quantia para a quitação do débito, têm dó de tirar o dinheiro da sua conta bancária e colocar na do credor. Fazem do seu bolso o ninho do dinheiro, pois pensam que dinheiro choca no bolso, esses não arrumam desculpas. Apenas dizem para o credor voltar amanhã ou, então, que, posteriormente, o procurará. Entretanto, não cumprem, enrolam com o dinheiro no bolso.

Há aqueles que já foram bons pagadores, contudo, agora, estão em uma situação financeira difícil, haja vista a ocorrência de fatos alheios a sua vontade que lhe ocorreram naquele momento. Pode ser uma doença na família, o desemprego, um envolvimento com maus negócios. Talvez sejam avalistas, fiadores que afundaram junto com seus avalizados. Esses, até não merecem ser considerados como maus pagadores, caso não tenham perdido a vergonha. Dizem sempre: "Devo e não nego. Quando puder eu pago". Muitos vendem tudo o que possuem para deixarem o seu nome limpo, negociam e acabam se ajeitando. Todavia, neste grupo, existem aqueles que ao perderem a vergonha preferem perder o nome e entrar, de vez, para o grupo dos maus pagadores ao invés de abrir mão de algum patrimônio.

O pior dos maus pagadores é aquele que não paga e está sempre desconfiando do seu credor. Para ele, sua dívida está sempre acima do normal. Está sempre colocando em suspeição a dignidade do credor. Acha que o Banco lhe cobrou juros a mais, que o agiota é um ladrão, um explorador, que o comerciante aumentou a sua conta no estabelecimento ou, até, que alguém possa ter comprado com o seu nome. Ele nunca faz as contas na hora de comprar ou de pedir o dinheiro emprestado. Qualquer preço lhe serve e qualquer juro lhe agrada. Ele quer ver, em sua mão, um produto comprado que seja fiado ou em um dinheiro tomado emprestado. E, se por acaso, o credor insistir na hora de receber ainda quer briga. Afinal de contas, uma inimizade em uma dessas circunstâncias lhe é bem favorável.

Existe, também, o bom pagador chato. Ele paga em dia e acha que está fazendo um grande favor ao credor. A dívida ainda está por vencer e ele já está dando satisfação, dizendo que o dinheiro está sendo preparado para a quitação. Auto se elogia e pensa que saudando os seus compromissos no vencimento está agindo por mérito, quando, na verdade, ele nada mais está fazendo do que cumprir com a sua obrigação. Para mim, esse é o mau pagador incubado.

Tem um rifão português que diz que todo mau pagador é bom cobrador. Eu, talvez, então, seja uma exceção a essa regra porque sempre fui um bom pagador como também um bom cobrador. Na minha vida, tive funções de cobrador pelas quais pude conviver com os mais diversos comprometidos com dividas fossem bons ou maus pagadores. Como bancário, por mais de trinta anos, eu pude ver o que o dinheiro faz na vida das pessoas.

Na minha adolescência, fui cobrador do antigo Clube Recreativo Candeense. Eu sabia quando estava sendo enrolado e quando o devedor mandava falar que não estava em casa. Posteriormente, fiquei sabendo pela boca deles mesmos o quanto escondiam de mim quando me viam com aquela pasta na mão. Eu assentava nas imediações da sua casa até ele aparecer e não foram poucas às vezes em que o mentiroso dava de cara comigo. Se o dinheiro não aparecesse, eu voltava no dia seguinte. Eu fui o cobrador mais chato que já existiu em Candeias. Afinal, não eram dívidas de remédios, mas sim, de bebidas alcoólicas durante um baile ou o carnaval. Quando eu me sentia, demasiadamente, enganado, eu cobrava perto da namorada, cobrava do pai, cobrava da mãe. E como naquele tempo a rapaziada era um pouco mais vergonhosa, o dinheiro aparecia. 

Certa vez, o Italiano Césare Matti, genro do grande comerciante Celestino Bonaccorsi, me entregou uma pasta cheia de contas vencidas e atrasadas. Entre elas, havia uma considerada perdida. Disse-me que eu seria remunerado com 10% de todas as contas vencidas.

A conta era, naquele tempo, de Cr$ 800,00 (oitocentos cruzeiros) no dinheiro antigo. Se eu a recebesse, seria uma grande bolada a meu favor. Eu ia duas vezes, por dia, visitar o Gonçalo em sua marcenaria. Ele nunca negou 

Olha, Armando, se eu achar quem me venda um bilhete de loteria fiado e se este for sorteado, eu pago, com certeza, essa conta com todos os juros, com correção monetária e ainda lhe dou uma gorjeta caprichada. É o único jeito de você receber. Fora isso é impossível. No mais, você pode vir aqui todo dia para a gente bater um papinho, eu muito gosto de conversar com você.
 FENÔMENO CANDEENSE.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos
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quarta-feira, 3 de abril de 2013

COMENDO CARANGUEJO.

 

 ----Eu faço parte de um grupo de blogueiros amadores que, na maioria das postagens, mostra histórias verídicas. Um idoso contando histórias o faz com casos e fatos ocorridos no passado e nesses casos ele sempre faz parte do elenco quando se sente como se estivesse pintando um quadro em cores misturadas, retratando uma arte híbrida do naturalismo e do realismo. Contudo, a fonte inspiradora não se encontrará mais sob os olhos, mas sim, entre o cérebro e o coração. É assim que me sinto neste momento.

----Hoje, ao abrir uma gaveta do armário das minhas lembranças, veio à tona de minha memória, o nome de um dos meus grandes amigos: o candeense, Elvécio Melo Silva. Ele era o filho mais velho do Dé Cassiano. Elvécio se encontra em um quadro apenso às paredes do meu coração.

----Ao recorda-lo foi como encontrá-lo no antigo Bar do Lulu. Eu, com meu violão mal tocado, cantando com ele as canções de Claudio de Barros, um cantor que fazia muito sucesso naquele momento. Tínhamos muita coisa em comum. Sempre nos entendemos. Gostávamos das mesmas músicas e fazíamos serenata quando não havia, ainda, as vitrolinhas portáteis.

----Elvécio foi, durante muitos anos, viajante. Vendia as famosas balas Santa Rita, da cidade de Oliveira. Posteriormente, veio a ser motorista de taxi, profissão esta que exerceu durante muitos anos fazendo a praça de nossa cidade.

----Era o locutor oficial das barraquinhas de Nossa Senhora das Candeias e de São Sebastião. Empolgado que era, colocava sempre o seu prefixo musical, a famosa polca: Barril de Chope e, -----conforme o link abaixo-----; assim, iniciava a sua locução:

----“---Senhoras e senhores”! Ao som deste prefixo musical, vai para o céu de Candeias o serviço de alto falante das barraquinhas de N.S. das Candeias e de São Sebastião.

Na técnica de som está, Sebastião Salviano;

Recepção do estúdio, Marina Salviano;

Discoteca e seleção musical, Santinha Salviano; ao microfone, este amigo de vocês: Elvécio Melo Silva.

 ----Nas barraquinhas de Nossa Senhora das Candeias, o ouvinte encontra um quentão caprichado, um delicioso tira-gosto, um jogo de víspora, o coelhinho da sorte, além do leilão das prendas. E não se esqueçam de que a renda arrecadada será toda destinada para o aumento e reforma da nossa matriz.

 ----Assim, dando sequencia a nossa parte musical, vamos ouvir na voz de Duo Guarujá, o bolero: Só nós dois. Esta gravação Sueli do Dondico, oferece ao Armando do Zé Delminda, com muito amor e carinho.”

----Na nossa juventude, tudo tem uma conotação mais alegre. Portanto, eu sinto muita saudade das quermesses daquele tempo. Parece que eram mais animadas, mais alegres.

----Casado com a professora, Marta Santos, Elvécio vivia na antiga casa da nossa saudosa professora, Dona Elisa Paiva, bem próximo à Igreja do Senhor Bom Jesus.

----Certa vez, quando eu morava na cidade de São Paulo, recebi a visita do meu amigo, Elvécio. Dali, fomos para Santos a convite de nosso amigo, Ronaldo Oliveira. Ao chegar à cidade da Baixada, fomos à praia. Ronaldo, como bom anfitrião, levou-nos a um barzinho onde nos foi oferecido um prato de caranguejos. Eu e o Elvécio havíamos ouvido falar que se tratava de uma iguaria deliciosa, um produto do mangue. E nós, que não sabíamos nem o que era mangue e nem o que era comer caranguejo, ficamos assustados e calados.

----Aguardamos curiosos e receosos. Afinal, comer caranguejo não estava em nossa programação. Mas sendo caranguejos do mar, naturalmente não teria nada a ver com os nossos caranguejos venenosos e asquerosos. Até que o famoso prato fosse servido, enchemos a cara de conhaque uma vez que não podíamos ser covardes diante de um convite tão gentil. Quando o garçom colocou aqueles enormes crustáceos à mesa, acompanhados de um martelo de madeira, farinha, limão e molho de pimenta, eu e o Elvécio nos entreolhamos como se quiséssemos dizer: E, agora, José?!

----Ronaldo, com o fito de nos intimidar, não nos ensinou como comer o bicho. Disse apenas: isso é igual a peixe, sirvam-se. Ficou enrolando, e eu iniciei olhando para os lados para ver se tinha alguém comendo aquele bicho, deveras, esquisito.  Contudo, nós, com o cérebro já turbinado, pegamos o martelo demos uma martelada naquilo e chupamos como se chupa um osso de suã e o que menos nos interessou foi as "perninhas" do bicho. O que era, realmente, para ser apreciado. Para quem conhece a iguaria, sabe o fora que demos.

-----Que mancada! Dois caipiras comendo caranguejos aos olhos do garçom com os olhos fixos em nós e o Ronaldo como se estivesse sentindo um orgasmo. Foi um dia inesquecível. Durante anos eu e Elvécio comentamos sobre isso.

----O tempo ficou incumbido de lhe roubar a saúde. Anos depois, vitimado por um cruel diabetes, o meu bom amigo ficou resguardado no seu habitat, fora dos contatos com os amigos. A falta de visão o colocou em um mundo escuro e, em uma última visita que lhe fiz Elvécio não me reconheceu. Poucos dias depois, chegava-me a notícia de sua morte.

----Retratar uma passagem da vida é, sem dúvida, reviver aquele momento, seja ele feliz ou infeliz. Se feliz, é como se estivesse buscando revivê-lo; se infeliz, é demonstrar a felicidade por tê-lo vencido. Entretanto, de qualquer forma, o brilho desse quadro será a saudade que jamais se apagará enquanto existir vida em uma caixa de lembranças. Uma caixa de lembranças na qual se encontram a infância e a juventude guardadas em um canto do sótão da vida. Relembrar o passado é reviver uma viagem pela estrada da existência. Uma existência que, com certeza, é cheia de tropeços, de risos e lágrimas.

---- Onde quer que esteja meu bom amigo, Elvécio Melo Silva, receba o meu forte e saudoso abraço.

 ----Clique para ouvir o Barril de Chope

http://www.youtube.com/watch?v=b41CK_xEbeE

 Armando Melo de Castro


Postado por Armando Melo de Castro às 19:12 3 comentários:

quinta-feira, 28 de março de 2013

DORMINDO E SONHANDO

Existem pessoas que dormem muito e outras que dormem pouco são os casos de quem tem insônia. Geralmente, desconsiderando as exceções, quanto mais velho uma pessoa vai ficando dorme menos. A cama é um móvel muito apreciado pelos dorminhocos. Além de dormir, a cama serve para descansar, para se amar e transar; --- ter filhos e sonhar. ----- Com certeza, as pessoas só não gostam de lembrar que a cama é também um lugar de partida para a eternidade.

Há pessoas que só de verem uma cama quase sentem um orgasmo, não para o prazer carnal, mas para dormir um belo sono e sonhar com um mundo que não lhe pertence.

Há quem goste de contar, em detalhes, os sonhos que teve durante o sono. Pessoas que escolhem com o que sonhar e, às vezes, tentam sonham até com o futuro de alguém. Pratica muito comum entre aqueles que apreciam um joguinho do bicho.

O sonho está associado ao sono. O sonho acordado não tem nada a ver com o sonho de quem dorme. Aqui, em Candeias, havia um rapaz, chamado Dimas. Era viciado em jogo do bicho. Dormia mais cedo para sonhar com os bichos e, assim, no outro dia, ter um belo palpite para arriscar a sorte. Quando perdia o sono, ficava chateado, pois estaria perdendo tempo em não sonhar. Isso pode até parecer piada, mas não é. Dimas vivia em torno do jogo do bicho.

No meu tempo de bancário, eu tive um colega e amigo, o Antônio Torres. Ele possuía o hábito de sonhar com atrizes famosas em situações eróticas. A coisa foi ficando tão séria que ele chegou a se casar com a Sonia Braga com direito a uma prazerosa lua de mel. A Vera Fischer, quando ainda nova e famosa, era o seu cacho. Vivia contando, na maior tranquilidade, como se real fosse, as suas noitadas.

Certa vez, o exagero foi tanto que, durante um desses sonhos, ele começou a sussurrar, em alto som, como se estivesse sentindo alguma dor fazendo com que o sono de sua esposa fosse interrompido. ----- Diante desta situação, ela, já acordada, lhe perguntou: “O que é que foi, Toninho? O que é que você está sentindo? Onde está doendo?" E ele, acordando assustado, disse: "Não é nada, não, mulher". Quando, então, ela o interpelou, como um aviso: "Olha lá, hein, Toninho”! “Olha lá, seu safado”. “Quem cê tá cumeno ai”?

Outras pessoas fazem as mais estrambóticas análises dos seus sonhos. Dona Ester, minha antiga vizinha da Rua Coronel João Afonso, ficava toda feliz quando sonhava com merda. Dizia que o sonho é o contrário da realidade. Para completar a sua convicção sobre esse tema, espalhou para a cidade inteira que sonhara com monsenhor Castro, as vésperas de sua morte causada por um câncer, de que o mesmo estaria vendendo saúde e que teria se curado do câncer.

E para que a bola dela ficasse ainda mais cheia, o seu marido, Joãozinho de Paiva, tinha um problema de incontinência fecal; portanto, não usava cuecas curtas. Preferia as ceroulas. Gostava de ter as partes bem protegidas. Certo dia, Dona Ester sonhou que ele teria se borrado todo e enchido a ceroula. ----- Como para ela merda no sono significava sorte e dinheiro, jogou no porco. Acertou para azar do banqueiro. ----- Agora, o pior foi ela contar para a cidade inteira como teria tido um palpite tão certeiro graças à incontinência fecal do marido. Coitado do Joãozinho! Todo mundo ficou sabendo que ele havia enchido as calças.

Portanto, suponho que o dorminhoco vive em dois mundos. O mundo real e um mundo fictício. Contudo, não vamos exagerar. Viver o que sonhamos é sempre um susto quando acordamos.

Mas, de todos os casos, o mais pitoresco de todos, aconteceu com o Chico Sinhana. ------ Chico Sinhana era irmão do Joanico, pai do Barroso. Ele dormia dia e noite. Naturalmente deveria ter alguma debilidade para dormir daquele tanto. ----- Certa vez, a sua casa ficou fechada por três dias e, em uma cidade pequena, aquela situação acabou chamando a atenção das pessoas. A casa, então, foi arrombada e, ao acordarem o dorminhoco, ouviram dele a seguinte bronca:

PUXA GENTE! MAS VOCÊS, PELO AMOR DE DEUS, QUE COISA!!! SERÁ QUE A GENTE NÃO PODE NEM TIRAR UM COCHILO SOSSEGADO!?

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

Postado por Armando Melo de Castro às 17:17 Nenhum comentário:

segunda-feira, 18 de março de 2013

A ESCADA ROLANTE.

Foto para ilustração do texto.
Semana passada, quando eu circulava pelo interior de um grande shopping em Belo Horizonte, borbulhou, em minha mente, a primeira vez que fui a nossa capital. Eu devia estar com, mais ou menos, dezessete anos. Em meio àquela selva de pedra, eu me senti muito pequeno e, com isso, cheguei a ter medo, sem exageros, de um prédio daqueles cair sobre a minha cabeça.

Eu, como já disse, era um garoto muito bobo. Naquele tempo, não havia essa locomoção de hoje. Não existiam os ônibus. Aqui, em Candeias, passava uma pequena jardineira que demorava um dia para ir de Campo Belo a Formiga e permanecia, por lá, poucas horas. Era uma pequena estrada de terra que vinha pela comunidade dos Arrudas, atravessava a cidade, indo rumo à usina velha, depois os Baiões e, finalmente, Formiga. Essa jardineira que conduzia apenas vinte e cinco passageiros, quase sempre, transportava meia carga. Era de propriedade dos irmãos Antônio e Brás que eram irmãos, também, do Euridinho da Lucy.

O outro meio de transporte da época era o trem de ferro. Existia o misto (carga e passageiro) e, ainda, o noturno que transitava, obviamente, à noite. Nesse tipo de trem havia leitos e um restaurante. O trecho, sem conexão para os candeenses, era de Ribeirão Vermelho a Garças onde se faziam conexões com muitas locomotivas para outras bandas. Era esse o caminho que nos levava até Belo Horizonte que consumia, ao final, um dia de viagem.

Mas, voltando ao início, minha primeira ida a Belo Horizonte foi a viagem mais emocionante que eu fiz na minha vida. Além de Candeias, eu conhecia poucas cidades, como Formiga e Campo Belo. Conhecer Belo Horizonte seria um feito dos mais importantes para satisfazer a minha vontade de conhecer outras terras. E conhecer a capital, então?! Nossa! Esse dia sempre foi esperado por mim como uma bomba a explodir dentro do meu peito.

Em Candeias, havia somente um táxi. Aliás, antigamente, não se falava táxi. Era carro de praça e o motorista era chofer de praça. Esse táxi era do Edson Cordeiro, pai do Ailton Cordeiro. Edson era filho único. Seu pai, bem aquinhoado, teria lhe ajudado a se dar o luxo de dispensar o seu emprego na ferrovia, onde era o mais competente de todos os telegrafistas, pelo fato de ter sido transferido para a cidade de Lavras. Edson comprou um automóvel da marca norte-americana Ford e o colocou na praça. Ter um carro, naquele tempo, era um verdadeiro luxo. Logo, em Candeias, existia apenas um carro de praça que era coisa raríssima nas pequenas cidades.

Edson Cordeiro gostava muito de mim. Apesar de ser uma pessoa extremamente sistemática, eu não sei o porquê, mas, os nossos anjos da guarda se deram muito bem. Assim, em uma viagem que ele contratou para Belo Horizonte, quando foi levar um técnico que teria vindo a Candeias a fim de arrumar o transmissor de radio que existia na Igreja Matriz, ele me levou como caroneiro para lhe servir de companhia.

Esse convite foi o maior presente que eu poderia ter recebido de um amigo. Tomei um banho com sabonete Gessi, usei desodorante até no sovaco das pernas, lambuzei os cabelos de brilhantina Glostora e ensopei o pescoço com perfume Lancaster.

Na hora que entrei no carro, foi um cheiro só e já comecei a bancar o meu mico porque não sabia usar nem Glostora e nem Lancaster. Todavia, como o Edson e o passageiro não possuíam alergia, foram sentindo aquele cheiro misturado que não era nem de brilhantina e nem de perfume.

Eu nunca havia visto asfalto. Quando eu vi aquela rodovia asfaltada, eu já expressei a minha grande admiração como que podia existir uma estrada cimentada. Como se houvesse cimento! E quando eu admirava alguma coisa, eles riam e achavam bom. E eu pensava que estava abafando! Que ingenuidade!

Mais à frente, nós estacionamos em uma parada, à beira da estrada, para tomarmos um café. Em um canto do restaurante, havia uma mulher fritando pastel e todo mundo dando preferência aos seus pasteis quentinhos que estavam sendo feitos na hora. Eu acho que eu nunca havia comido um pastel quente porque quando dei a primeira dentada aquele vapor me fez queimar a boca deixando-me de sentir o gosto de qualquer coisa que viesse a comer posteriormente.

Chegamos a Belo Horizonte. Eu parecia um frango de granja em um galinheiro de galinha índia. Tudo para mim era novidade. Como estava assustado! Após deixar o passageiro no seu destino, o Edson estacionou o carro, no centro da cidade, e fomos até a Galeria do Ouvidor. Aí, então, foi o meu martírio. Depois que desci do carro, em meio aquele movimento todo, eu fiquei transtornado. Na hora de atravessar a rua, o Edson ficava de olho em mim até que entramos na tal Galeria do Ouvidor e paramos em frente a uma escada rolante. Então, ele me disse: você vai à frente porque pode ser perigoso. E eu, meio tonto, consegui agarrar no corre mão. Afinal, eu estava mais assustado do que antes. Ver uma escada subir!? Isso seria coisa de outro mundo! Onde eu poderia ter visto ou, simplesmente, ter pensado nisso antes. Aquilo seria assunto para um mês quando eu voltasse para Candeias. Um corre mão onde a mão não corre. Um degrau que sobe ao invés das pernas. Nem meus pais teriam visto uma coisa tão estranha.

Lá em cima, rodamos as lojas e, logo, voltamos. Na hora de descer a escada, como na subida, teria sido bem sucedida. Como não houve, por parte do Edson, a preocupação em me proteger eu fui afoito, querendo aparecer. Meti o pé entre os dois degraus, dei uma derrapada pela escada abaixo, no que fui socorrido pelos demais usuários que, após verem que nada me tinha acontecido de grave (exceto umas pancadas), riram. Acharam graça do caipira que, depois disso, saiu escalavrado. E essa viagem, que seria um assunto amplo na minha volta, foi silenciosa. Graças a Deus, o Edson nunca contou para ninguém e, até pouco antes de sua morte, eu comentava. “Como eu era bobo, hein, Edson?!”– E ele rindo, dizia: “Toda primeira vez tem um desajeito, Armando.” E eu, cá comigo, pensava:

Ainda bem que eu tenho outras primeiras vezes que ninguém viu.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

Postado por Armando Melo de Castro às 13:58 Nenhum comentário:

domingo, 3 de março de 2013

UM CANDEENSE MALOGRADO.


Vista parcial de Candeias - Minha terra querida.
É lamentável que existam pessoas que não saibam assumir os seus problemas, os seus defeitos, as suas fragilidades ou, ainda, as suas incompetências. Essas pessoas acham que é mais fácil culpar alguém, até mesmo a sociedade, omitindo, assim, os seus erros quando seria muito mais elegante, comprovando maturidade, elas admitirem as suas responsabilidades diante dos seus fracassos. É sinal crasso de imaturidade buscar subterfúgios na ânsia em se defender do indefensável. Um exemplo emblemático disso, encontramos naquela conhecida alegação de quem diz que não melhorou de vida porque nunca soube puxar o saco de ninguém. As vítimas dessas perturbações morais causadas por indignação, aversão, por vezes, até repulsa se tornam pessoas chatas e pedantes diante do seu egocentrismo. Neste contexto, temos que admitir que se tratam, na realidade, de vítimas de um conflito social.

Há alguns dias, quando eu estacionava o carro na praça, defronte ao Banco do Brasil, encontrei-me com um conterrâneo e amigo meu que há muito não o via. Fazia tanto tempo que a gente não se encontrava que já éramos quase que desconhecidos, tendo em vista as alterações que o tempo promoveu em nossos físicos. Desconfiados, nós nos identificamos e nos vimos abraçados depois de uns quarenta anos, mais ou menos. Após alguns minutos, próximos da Igreja do Bom Jesus, a igreja na qual frequentamos as aulas de catecismo, nós trouxemos, à tona, a nossa infância e a nossa juventude. Dado ao desenrolar da sua história eu não direi o seu nome e o tratarei aqui apenas por meu amigo.

 Meu amigo que tem a idade caminhando junto a minha, dizia, em uma constante exaltação, que hoje se encontra, financeiramente, muito bem de vida. Todavia, em crescente lamúria, ressalvava que para isso não devia nada a “esta terra”, na qual passou até fome, nunca tendo lhe acolhido como um filho. Parece que me escolhera para um desabafo ao denegrir, desnudar e desmoralizar o local no qual nasceu. Trazendo, no fundo da sua alma, insistente mágoa de quem um dia foi ludibriado pela sorte diante de uma vida que ofereceu muito a uns e quase nada para outros.

 Eu, ao contrário dele, amo a minha terra. Se Deus me colocou aqui, não foi por acaso. E se tive de sair para ganhar a vida fora, isso jamais foi e será motivo para que eu venha a desnudar, denegrir ou desfazer daquilo que o Criador me deu o direito de falar: MINHA TERRA. É como dizia o meu amigo, Rômulo Nardi: “A palavra minha é uma grita ao olho.”. Entendo que devemos florescer o lugar em que Deus tenha nos colocado, mesmo que venha a ser sobre uma pedra, um rochedo. Quantas pessoas nasceram ricas aqui em Candeias e hoje estão pobres? E, contrariamente, quantos nasceram pobres e que agora estão ricos? Se fizermos a nossa parte, não precisaremos ficar em um autêntico vale de lágrimas para justificarmos aquilo que não conseguimos fazer. Aquele que planta, colhe. Falar mal do lugar em que nascemos é repudiar aquilo que Deus nos determinou. É, também, desconhecer os critérios lógicos da Obra da Criação de Deus. Eu sempre vivi e ainda vivo fora de Candeias. Entretanto, estou sempre aqui comungando a mesma hóstia com a minha mãe em seus oitenta e cinco anos de idade.

 Dizia, o meu amigo, de uma forma pouco elegante, que aqui é terra de um povo atrasado, de cabeça fechada e que só estaria aqui em visita a um amigo doente que lhe teria matado a fome, algumas vezes, durante a sua infância. Exaltava que é uma cidade que não favorece ninguém, que não há emprego, é sem cultura, enfim, sem nada.

 Diante daquela postura, que, sob os meus olhos de bairrista, já me deixava um tanto desconfortável, eu fiz questão de ouvi-lo, atentamente, para depois me manifestar, emitindo minha opinião e fazendo meus comentários. E , assim, ele continuava: “Eu nunca entrei naquele clube ali (indicando o atual Fórum, sede do antigo Clube Recreativo Candeense). Emprego aqui para mim só foi de servente de pedreiro ou de ajudante de caminhão. Hoje, eu tenho um apartamento muito bom em São Paulo. Tenho duas casas de aluguel na Vila Sabrina e ainda tenho uma mercearia que me dá uma renda muito boa e serviço para os meus dois enteados. Minha mulher é enfermeira aposentada e ganha uma nota. Eu não sou ainda aposentado porque o tempo que eu fiquei aqui, nesta merda, eu o perdi.”

 Com essa última informação, eu pude sentir que o meu interlocutor papudo começava a declinar perante os meus ouvidos aquilo que me fazia compreendê-lo. Entre mim e ele, a diferença de idade é muito pequena e, então, porque ele ainda não teria se aposentado? Ele foi para São Paulo na mesma época em que eu fui. Lembro-me, enquanto tínhamos contado, sei que fora cobrador de ônibus em São Paulo. Entretanto, eu já me encontro aposentado há dezessete anos!...

 E como já se encontrava um tanto cansado de esnobar os seus méritos, culpando Candeias por seus fracassos, resolveu, num estalo, demonstrar a sua capacidade financeira quando me convida para ir com ele até ao Bar Piloto para tomarmos Uísque. Eu notara que ele já havia ingerido bebida alcoólica, dado ao forte cheiro que exalava sobre o meu rosto enquanto falava. Dispensei o convite e, neste comenos, eu me preparava para me despedir, contudo, ele teria dado um nó em minha garganta que necessitava de ser desatado. E, assim, comecei:

 A vida é assim, meu amigo:

 Às vezes, as pessoas se revoltam com a vida, com o meio em que nasceu, todavia, sem maiores motivos. Mas, isso é compreensível. Procure colocar a sua cabeça no lugar. Você cobra de Candeias o fato de ser filho de um conflito. Parece que está aqui para se vingar. Porém, enfim, o que você fez por Candeias? Parece que você nunca amou a sua terra, nem mesmo quando criança. Você já falou de uma porção de gente, inclusive alguns mortos e que a meu ver eram boas pessoas.

 Lembra-se quando fomos colegas de escola? Você era muito revoltado e um dia que a professora pediu o nome de seus pais você disse que era filho de uma puta. A turma fez um olé e você saiu rogando praga em todo mundo.

 Você era criado por sua avó. Certa vez, deu de querer saber quem era o seu pai e, como a sua avó não sabia nem do paradeiro de sua mãe, você ameaçou a pobre velha com um disparate de palavrões.

 Você se lembra do engenheiro espanhol que construiu a praça central de Candeias, o Dr. Juan Fabra Romero? Eu e você éramos serventes de pedreiro na construção da praça central. Você, por muitas vezes, faltava do serviço sem mais e sem menos. O engenheiro lhe dispensou dos serviços e você o mandou tomar não sei aonde, na frente de todo mundo!?

 Lembra-se, também, daquela vez que você roubou umas garrafas vazias e as vendeu para comprar cigarros. E, por falar em cigarros, você ainda menino fumava. Você deve ainda se lembrar de quando enfiou um cigarro aceso no braço do Marcio da Quinha do Dedé, somente porque ele comentou que você estava fumando no banheiro da escola? Nossa! Aquela, talvez, seja a pior de todas as suas...

 Olha, meu amigo, eu me recordo muito bem de você. Fomos, no mesmo tempo, meninos e também colegas. Você não era flor que se cheirasse. Chamava as professoras de puta. Era levado, quase sempre, ao gabinete da diretora e, só não foi expulso da escola, porque o sistema daquela época era muito contemplativo, em termos de expulsão. Entretanto, como naquele tempo permitia-se às professoras baterem nos alunos, você vivia debaixo de vara.

 Eu sei que você melhorou de vida porque herdou da sua mulher, em São Paulo, uma pequena mercearia. Mas, quem manda por lá é ela e os filhos de seu primeiro casamento, os seus enteados. Sei que você não tem filhos. Eu conheço a sua história porque assim me disse o seu primo, Toninho. Você teve a sorte de se casar com uma mulher afortunada. Dessa maneira, o patrimônio que você diz lhe pertencer não foi resultado de seu trabalho. O seu parente que você maldiz me disse que você ganhou na loteria ao ter casado com uma viúva e que você a obedece por se tratar da sua galinha dos ovos de ouro. Causa-me, contudo, estranheza o fato de você não ter, ainda, se aposentado.

 Eu quero lhe dizer, meu amigo, que as pedras que nos atiram pela vida a fora merecem uma reflexão se a merecemos ou não. Uma autocrítica, de quando em vez, nos faz bem. No meu modesto entendimento, essas dores que dormem dentro de você, durante tantos anos, são dores de uma doença que só você pode curar. Você não perdoa nem a sua mãe que foi uma sofredora. O que ela fez hoje é comum. Foi uma mãe solteira que acreditou em um rapaz sem fibra e que sumiu e a abandonou na rua da amargura. Seu avô, muito ignorante, como a época em que vivia, a expulsou de casa. Tão logo ela deu a luz a você, ela sumiu e, também, nunca mais foi vista por aqui. Você sabe disso porque já lhe foi contado. Esse ódio que você transporta dentro de seu peito e de sua alma, o faz pobre, muito pobre. O torna mais pobre do que quando saiu daqui porque agora você é um homem maduro e tem o dever de pensar melhor...

 E, com um sorriso amarelo, me disse:

“É, Armando! Você não sabe o que está falando!”

 Desencantados, um com o outro, despedimo-nos. Eu entrei no Banco do Brasil e ele seguiu para o Bar Piloto.

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida (Vinícius de Morais).

 Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Ac
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Vista a partir da Igreja Matriz com destaque para a belíssima praça circundada pela Avenida 17 de Dezembro (dia da cidade).

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Este blog é uma viagem no tempo, através dos relatos de uma época que a vida era mais do que uma seqüência de fatos, da rotina tresloucada dos dias atuais.

Autor: Armando Melo de Castro




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