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domingo, 8 de maio de 2011

A RAINHA DO COCHICHO

Até há pouco tempo eu ia todos os meses a Candeias para visitar minha mãe. Apesar da minha residência fora eu sempre me considerei, também um morador presente em Candeias. Durante anos eu intercalei as minhas ações com Candeias, consultas médicas rotineiras, conta bancária, o meu título de eleitor, nunca tomei café que não fosse de Candeias, queijos etc. E mesmo quando morei bem distante, como em Governador Valadares e São Paulo, nunca pude ser considerado um ausente.

 

 À bem da verdade eu me considerava ter duas residências. Mesmo porque eu nunca teria me desligado definitivamente da minha terra mesmo estando trabalhando por muitos anos fora. Com a minha aposentadoria eu fui, ainda mais frequente. Uma espécie de ciclo social que teve fim depois de mais de cinquenta anos, após a recente morte de minha mãe no ano passado.

 

Portanto, durante esse tempo eu estive por várias vezes no consultório do Dr. Celso Andrade na Rua Pedro Vieira de Azevedo, fazendo uma consulta rotineira que faço, uma vez por ano, para ver como está a minha carcaça.

 

Durante a última visita que fiz numa consulta ao Dr. Celso, o médico me recomendou fazer algumas caminhadas. Afinal a idade e o sedentarismo me fazem de certa forma modulado em toucinho e a minha barriga não é que esteja muito grande, mas está ficando caída para frente, criando um debrum e aquilo é de incomodar e causar estorvo. A gente aperta o cinto, mas este não se prende no umbigo. Fica um negócio desarrumado.

 

E já que caminhar teria sido um conselho médico e caminha trata-se de uma tarefa que não podemos delega-la como pagar para que alguém a faça por nós, o recurso é andar. Se tivesse como pagar para andar para mim, eu juro que eu tiraria da boca para isso. Mas como não tenho como fazer isso, o remédio é escutar o conselho do médico e pronto.

 

Assim, naquele momento então, me levantei cedo, às sete horas da manhã, com o estômago forrado, com um belo pão com manteiga, uma canecada de café com leite e mais um pedaço de bolo de fubá, zarpei, todo engalanado à moda dos caminheiros, da minha residência, na Rua Vereador José Hilário da Silva 36.

 

Dali tomei a Rua Pedro Vieira de Azevedo rumo à Praça Antônio Furtado, onde tomaria a Rua Professor Portugal, Amorés e daí, seguindo sempre em busca de uma baixada. O que não estaria, no meu projeto, seria algum morro. Só baixadinha. Afinal, eu não queria gastar energia.

 

Para mim, esse negócio de caminhar é muito monótono. Se a gente vai com alguém tem que escutar tudo que é dieta, tudo que é problema, tudo que é chatice e tudo que é mania daquela companhia.

 

Se, você vai sozinho, vai feito um sonâmbulo. Vai andando, andando, andando. E se dana a pensar, pensar e pensar. Parece que não há uma sintonia com a cabeça e os pés. Eu vou assim: pensando, pensando. A primeira coisa que eu penso é que não paga a pena caminhar. Caminhar, se o objetivo não estiver logo ali no fim da caminhada, é uma coisa esquisita.

 

Se durante a caminhada, a gente, suando, não pode pensar em chegar à casa e abrir uma cerveja, beber um belo de um aperitivo e tirar o gosto com um pedaço de carne dois pelos!!! Ah! Caminhar torna-se uma coisa triste um martírio... Ao contrário disso, uma alternativa seria ir rezando e pedindo a Deus para que os homens inventem um remédio que possa substituir a caminhada.

 

Bem! De qualquer modo, cada caso é um caso. E, enquanto eu não tenho certeza, se meu caso vai compensar, vou zoando por aí.

 

Se existe; eu não sei. Mas, acredito ser difícil encontrar alguém que é chamado de barrigudo e não se sinta contrariado. Esta história de que caminhar faz perder barriga é conversa. Sei de gente que vive caminhando e, quanto mais caminha, mais barrigudo vai ficando. 

 

Existem pessoas que deixam de comer, perdem peso nas outras partes do corpo, mas a barriga continua. Apenas murcha um pouco, mas continua lá. Se a pessoa bebe muita água, a barriga cresce na hora. Se, se come, cresce. Para mim a barriga é a indecência do corpo. Eu tenho tentado tirar do meu vocabulário a palavra barriga e substituí-la por circunferência abdominal avantajada. Eu acho que ficaria mais confortável. A tal de barriga é triste. A gente vai calçar um sapato quase morre com o encontro da coxa com a própria. Perde-se o fôlego. E na hora daquilo!? Na hora daquilo é como diria um amigo meu: “É brabo com força”! Se a mulher é também gordinha, chumbo trocado não dói, mas e se ela for magra, esbelta, toda dentro do trinque?

 

Suponho que o único jeito de perder a barriga seja através de cirurgia, exercícios localizados e boca trancada. De uma forma ou de outra, de modo geral, caminhar deve fazer bem para a saúde, mas esse estilo de “caminhada”, andando sem necessidade de chegar, não causa em mim nenhum bem estar durante o exercício. Posso, por necessidade, fazer tudo isso. Mas, não me sinto bem. O meu ego fica contrariado. E eu lamento.

 

E já esquentadas as turbinas, encontro-me na Praça Antônio Furtado, quando avisto uma pessoa já bastante conhecida minha. Aquela meus amigos, que me atrapalhou a fazer o queijo, quando me pediu dois litros de leite emprestado... --- Ela pouco gentil e pouco amável. Mas, que me prende na conversa. Pensei logo: Aí vem chumbo grosso! Parei.

 

---Bom dia, Sô Armando! Caminhando para perder essa barrigona!?

---É! Mais ou menos isso!...

---O senhor tá muito barrigudo. Precisa dar um jeito nisso, uai!

---Evidentemente, minha barriga não é das menores, mas não chego a ser um barrigudo... Você diz isso porque tem um marido muito magro.

---O senhor tem cara de quem come muito.

---Nem tanto. É a tendência que eu tenho para engordar.

---Engana eu que eu gosto Sô Armando...

---Bem! Eu estou barrigudo, você já viu. E você como está?

---Com perdão da palavra, eu tô tipo dum estrume.

---Uai! O que houve com você para falar assim?

---É os fio, Sô Armando! Eu não guento ficá longe deles.

---E onde eles estão?

---O senhor vai me discurpá, mas eu num posso contá

---Tudo bem, mas por quê o que houve?

---Eles num quer que eu conte pra ninguém.

---Mas, eles estão escondidos?

---Não! É por causa da inveja. O povo das Candeias é muito invejoso.

---Invejoso! Mas, inveja de quê?

---O senhor não faz ideia do quanto os meus fio são invejados nesta terra... Se fica sabendo deles é capaz de fazer até macumba para a vida deles dá errado.

---Quer dizer então que, se você me contar onde eles estão, eu vou sair repartindo de porta em porta a vida deles?

--- Eu num quis dizer isso, Sô Armando! Pelo amor de Deus!

---Tudo bem. Eu perguntei, por perguntar. Agora, eu lhe peço licença porque vou continuar a minha caminhada.

---Não! Espera só um pouquinho, Sô Armando. O senhor me discurpa, Sô Armando, eu me danei com o senhor.

---Deixa isso pra lá.

---Eu queria perguntar uma coisa para o senhor, há muito tempo.

---Pois não. De que se trata?

---A rua do hospital chama hoje Pedro Vieira, Pedro da Dalva do Zoroastro. Mas o povo mais antigo chama de Rua dos Capão. Eu não me lembro quem me contou. E eu ouvi dizer que os Derminda e da famía dos Capão.

---Sim, o meu avô, João Delminda, era parente dessa família.

---Por acaso, alguém da famía do senhor foi capado? O senhor é mesmo da famía dos capão, Sô Armando?

---Sim. Quero dizer, acho que sou. O meu avô, o João Delminda, era parente desse povo. Mas, por que esta pergunta?

---Uai, Sô Armando, o senhor teve alguém capado na famía do senhor? Como é que foi isso. Quem foi? Foi o avô do senhor? Seu bisavô? Conta pra mim. Eu fiquei sabendo que esse povo era parente do senhor e estou quase morrendo de curiosidade, porque eu já fiquei sabendo que o povo da famía do senhor é meio sem vergonha. Mas, eu nunca fiquei sabendo nada do senhor e nem dos seus irmãos e nem nada. Quer dizer, tem gente, na famía do senhor, que é custoso, mas não é por causa de um que todos é sem vergonha, não é mesmo?

---Olha, eu não sei de que e nem de quem você está falando. Parece que você sabe mais da minha vida do que da sua!

---Obrigado, Sô Armando. Eu sei mesmo, muita coisa.

---Um dia desses, a Maria, amiga minha lá do Alto do Cruzeiro, me falou que eu sou uma bilheteira. E que não sabe onde eu fico sabendo de tanta coisa.

---Ela chamou você de quê?

---Bilheteira!

---E você não se ofendeu?

---Não. Por quê?

---Você sabe o que é ser bisbilhoteira?

---Sei.

---O que é?

---Eu perguntei para essa minha amiga e ela disse que eu era uma fiscal da vida dos otro. E isso não é bom?

--- Agora, você me dá licença eu estou indo continuar na minha caminhada.

--- Mas, o senhor não me respondeu quem era capado na sua famía.

--- Olha, ninguém foi capado na minha família. Esse negócio de capão é porque se trata de uma família que veio de um lugar chamado Capão, na zona rural e tomaram esse codinome. Ninguém foi capado. Meu avô era apenas parente dessa gente.

--- Mas, o senhor tem certeza? Eu nunca vi falar em roça chamada Capão não.

 

Eu já estava para perder a paciência e resolvia dar um basta naquele papo:

Quando aquela cidadã, toda entortada, começou a cruzar as pernas e lamentar:

 

--- “Nossa Senhora”! Aiaiai! Jesus!

 

--- Mas o que foi? Está passando mal? Perguntei.

 

---Eu esqueci que tomei três lactopurga e agora!? Tô frita!

 

Pensei, só pensei, mas não falei: Agora, você vai à merda...! Sua futiqueira... E continuei a minha caminhada.

 

Armando Melo de Castro

sexta-feira, 22 de abril de 2011

BAR PILOTO e Seu fundador.

Mário Rigali, o nosso querido Piloto, nasceu na Italia e viveu a grande parte de sua vida em Candeias. ---- Foi um grande incentivador do progresso de Candeias. Teve grande influência sobre a construção de nossas praças, jardins e a estátua de bronze que representa os nossos pracinhas. Bom amigo, prestativo, caridoso e humilde, dedicou a maior parte de sua vida, colaborando com a construção da nossa história.


Algumas pessoas diziam que Mário Rigali teria sido piloto de avião na sua terra. Mas, não. Ele não foi piloto e jamais pilotou alguma coisa. Fui muito amigo dele e pude ouvir dele tratar-se de uma brincadeira. Algum curioso lhe teria perguntado, tão logo ao chegar aqui em Candeias, o que teria feito na sua terra; e num lance, para dar uma resposta esperta, dissera ter sido piloto. Quem sabe estaria aí a sua legítima vocação!? E assim, autodenominou-se, Piloto.Quem conheceu o Bar Piloto no passado e o vê hoje, com certeza, sentirá o que sinto: muita saudade e lamento. Era um estabelecimento modelo de requinte, não só para Candeias, mas para toda a região. Nesse tempo, ainda não haviam sido inventadas as grandes lojas de autosserviço ou o supermercado autossuficiente. O comércio de Candeias, afora a Casa Celestino Bonaccorsi, era limitado a pequenas mercearias, pequenas vendas, onde só se encontravam secos e molhados de primeira necessidade. Produtos como, por exemplo, uma lata de palmito, um salaminho, uma garrafa de um bom vinho, queijos, azeites de oliva, presunto e uma boa mortadela, só eram encontrados no Bar Piloto.

Não se serviam bebidas no balcão. Isso era exclusividade nas mesas e nos reservados. Para isso havia diversas mesas onde o freguês era atendido. E já, naquele tempo, o bar dispunha de dois excelentes funcionários, competentes e responsáveis pais de família: Afonso Ferreira de Oliveira, o popular Afonso da Alvarina, e Sebastião do Leonides. Esses dois candeenses, dignos de louvores, fizeram as suas vidas iniciadas como funcionários do Bar Piloto.


Enquanto os funcionários trabalhavam, Piloto, sempre por ali conversando e num corpo-a-corpo com os fregueses dava uma ênfase de cordialidade.

O bar apresentava, nas prateleiras lotadas, variadas bebidas nacionais e estrangeiras; um longo balcão coberto de mármore sobre uma vitrine iluminada mostrando os produtos disponíveis, sendo esses de primeiríssima qualidade como bombons, chocolates, confeites e guloseimas ornamentadas.

À noite, o barulho era das vozes dos frequentadores, nas mesas trocando ideias e contando histórias diante de uma boa garrafa de vinho ou de cerveja. O requinte do ambiente inspirava o traje discreto dos fregueses e muitos desses se postavam de terno e gravata. O ambiente era frequentado por pessoas de todas as idades: de crianças a idosos.

Durante o dia, o silêncio era quebrado pela sonoridade de um rádio e o barulho da máquina de fabricar sorvetes e picolés. Uns picolés redondos e quadrados, dos mais variados sabores, cereja, limão, abacaxi e, ainda, o sorvete de coco queimado, uma verdadeira delícia!

Diante daquele turbilhão de lembranças, pude buscar, numa das gavetas do meu cérebro, o dia em que completei seis anos de vida. Era o dia 16 de janeiro de 1952, quando fui levado ao Bar Piloto pelo meu pai que me presenteou com um chocolate bem grande. Foi a primeira vez que comi um chocolate. Era uma grande barra com uma embalagem vermelha com umas listras brancas. O nome, ou seja, a marca, seria impossível poder lembrar. Eu só sei dizer que foi um dos dias mais felizes da minha vida.

Com aquele chocolate nas mãos, cheguei a estar desesperado para correr para casa, mostrar para a minha mãe, arrancá-lo da embalagem, dar uma dentada e distribuir um pedacinho para cada uma das minhas duas irmãzinhas que, com certeza, iriam provar, muito primeiro do que eu na vida, aquele delicioso manjar dos deuses.

E minha mãe, ao me ver chegar com o chocolate disse logo: “Uai! Vocês foram ao Bar Piloto!?” Era assim. O Bar Piloto era também conhecido pelos seus produtos.

O tempo determinou que Piloto se dedicasse apenas às suas representações e resolveu passar o Bar para frente. E este veio a ser de propriedade do seu mais antigo funcionário, Afonso Ferreira de Oliveira. Posteriormente, foi vendido para a Senhora Nica, esposa do Sr. Bernardino Bonaccorsi, quando foi gerenciado, durante muito tempo, pelo seu filho Guido Bonaccorsi. Daí, o Bar foi repassado para os irmãos Cassiano, os populares “Cabaceiros”.

A cada mudança, evidentemente, o estabelecimento perdia um pouco da sua originalidade, contudo, até então, mantinha as características do verdadeiro Bar Piloto. Mas, a partir dos compradores dos “Cabaceiros”, o estabelecimento perdeu completamente as suas características e, hoje, resta apenas o nome.

A crueldade do tempo e o desinteresse cultural são os responsáveis pelo abandono em que se encontra o Bar Piloto. Já não bastasse isso, temos ainda que lamentar o porquê que a história de Candeias não preencha este capítulo em branco destinado ao Bar Piloto e ao seu fundador; o querido candeense por adoção: Mário Rigali.

É lamentável, também, que as autoridades constituídas, principalmente os senhores vereadores, entre um mandato e outro, durante tantos anos, não tenham tido a iniciativa de homenagear alguém que veio de tão longe para colaborar com tanto amor na construção da nossa história, a história de Candeias.

Sua esposa Elza partiu para São Paulo em busca de estudos para a filha Iara. Piloto aqui ficou. Não abandonou a terra que o adotou. Por muitas vezes, já morando em São Paulo, na década de 60, fui portador de suas encomendas para a sua esposa que nunca mais voltou para Candeias.

Faleceu no dia 26/03/1968, aos sessenta e seis anos, vítima de um câncer prostático e está sepultado no Cemitério São Francisco, onde na lápide do seu túmulo está escrito:

“O CORAÇÃO QUE SE DESFEZ EM VIDA, DOCE CANDEIAS, POR TE AMAR, EU TE DEI; AGORA, DÊ-ME TU, A GRAÇA DE ME SENTIR EM TI, DESFEITO.”

Onde quer que esteja, receba o meu abraço, meu bom amigo Piloto.


Armando Melo de Castro
                 

quarta-feira, 13 de abril de 2011

CALITO E O RIO BRANCO E.C.


Na década de 20 existia, aqui em Candeias, um salão de barbeiro conhecido por todos como o Salão do Pedrinho. Situava-se na Avenida 17 de Dezembro onde se localiza hoje a Grazzy Modas.

Pedrinho (o meu bisavô) era o patriarca de uma prole de nove filhos dos quais três deles, também, eram barbeiros: Juquita, João Piruca e Carlos, o meu avô materno, conhecido pelo apelido de Calito. Exerciam a profissão neste salão o pai e dois filhos, o Juquita e o João.


Calito, tinha o seu salão na sua residência numa das quatro esquinas que formam as ruas Cel. João Afonso e Professor Portugal, onde atualmente reside a família do Sr. Antonio do Orcilino.
Calito - fanático torcedor do Rio Branco E.C.


    Foi barbeiro competente, tinha uma grande freguesia, num tempo em que Candeias tinha diversos profissionais desta área. Mas, era dado a estroinices e por isso nunca conseguiu muito na vida. De quando em vez invernava nos "goles"  e no carteado e daí o salão ficava fechado para balanço. Até que voltava a trabalhar para pagar as contas contraídas durante o período em que estivera invernado.

Trabalhando, Calito era uma pessoa pacata, tranquila. Bebendo era agitado, briguento e às vezes inconsequente, pois, muitas vezes, se tornava violento e era chegado numa arma de fogo, naqueles tempos dos delegados “calça-curta” quando Candeias era uma terra sem lei. Nesse tempo o Campo do Rio Branco Esporte Clube (o time do meu coração) ficava pouco abaixo da casa comercial do Vicente Vilela; e o futebol daquele tempo em Candeias, dava gosto.

O Rio Branco era um time ativo, com uma grande torcida e uma equipe de jogadores das melhores. Por muitas vezes ganhou no seu pequeno campo, partidas contra o Esparta e o Comercial de Campo Belo. A Associação Esportiva Candeense era o seu principal adversário porque neste tempo Candeias ainda não tinha o Clube Atlético Candeense.

Miguel Simões foi o fundador do time. A população da zona norte da cidade chegava a ser uma torcida fanática, aliás, não podemos nos esquecer que o Rio Branco é um time que está sufocado no esquecimento, mas já foi a “boa bola” candeense de outros tempos o que faz a sua torcida viver de saudade.

Nunca estava ausente nas grandes partidas o Monsenhor Castro, apostando sempre um engradado de cerveja, principalmente quando o jogo era contra a Associação. E o reverendo perdeu por muitas vezes as suas apostas por subestimar o vitorioso Rio Branco. Passarinho, um dos maiores ídolos do Rio Branco deve ter aprendido a tomar cerveja ganhada nas apostas do Monsenhor Castro.

Chico Viriço, o curador, sempre presente e com a cabeça cheia de pinga riscando o chão com uma faca tipo peixeira. Os irmãos “mulatos” João e Mané estavam sempre presentes na torcida-da-paulada. E o Calito, meu avô, se estivesse “invernado”, o bicho pegava.

Certa vez, veio jogar com o Rio Branco, o São Bento de Itapecerica. O São Bento estava atravessando a sua melhor fase. Havia ganhado todos os torneios lá pela região de Itapecerica e estava com a crista bem alta. A torcida do Rio Branco, por sua vez, não se deixava abater. Queria tirar à máscara, a crista, a fanfarra e tudo mais que elevava o São Bento. Faixas nos postes foram colocadas com dizeres agressivos de pouca hospitalidade aos visitantes.

Lá pelas três horas da tarde um caminhão tipo pau-de-arara pára defronte ao campo do Rio Branco. A torcida já começa a chegar e os jogadores acomodados em seu caminhão ficaram quietos aguardando a hora de entrar em campo.

Os insultos já começavam:

--- "Nois hoje vai mijá no tamanduá..." Outro já gritava do outro lado: --- "Que mané mijá, nois vai é cagá nesse bicho feio..." O campo recebendo a torcida, homens, mulheres e crianças. Quem não se divertia com o futebol se divertia com a brigalhada sempre prometida...

É chegada à hora do inicio do Jogo. O Juiz viera acompanhando o São Bento. Era sem dúvida um suicida. Tinha que ser um homem de muita coragem porque aquela partida mais parecia um espetáculo de uma arena romana.

Começa o jogo. A saída é favorável ao São Bento que num toque clássico leva todo o ataque para a área do Rio Branco. Uma cabeceada fatal faz com que o São Bento marque o seu primeiro gol em apenas um minuto.

Novo lance: um jogador do time visitante rola para a esquerda, avança, recebe de novo e toca para a pequena área quando lá já aguardava o atacante do São Bento, que num tiro leve faz o segundo gol com apenas três minutos de jogo.

O clima ficou tenso e as botinas começaram a trabalhar quando de repente Passarinho, o ídolo da torcida do Rio Branco, levou uma “botinada” que fez o neguinho rolar no chão de tanta dor. Ele que era o maior goleador do Rio Branco, agora meio contundido e diante de tanta marcação, não conseguia ver a cor da bola. Assim teve que sair deixando um espaço maior para o São Bento que veio a fazer o seu terceiro gol em menos de dez minutos do primeiro tempo.

Tudo indicava que ia ser a maior “lavada” da história do Rio Branco.

E diante daquele clima efervescente ouve-se um grito:

O desgraçado do São Bento que entrar na nossa área vai levar um tiro nas suas duas bolas e nunca mais vai querer saber de bola. Era o Calito, o meu avô, com uma garrucha na mão ao lado do gol, ameaçando quem se aproximasse da área do Rio Branco.

Não ficou nem um só jogador do São Bento em Campo. A torcida toda incitada via o caminhão saindo e jogadores do São Bento tomando o veículo em movimento.

Meu avô... Meu querido! Onde quer que esteja receba o meu beijo... Você era complicado com uma pingas na cabeça em dias de jogos do Rio Branco, mas era bom também... Isso era por amor ao Rio Branco, o nosso querido time que quando entrava no coração de alguém não saia nunca mais. 

O meu amor pelo Rio Branco é antigo e foi uma herança de meu pai e meu avô materno! 

Armando Melo de Castro
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quinta-feira, 24 de março de 2011

O TERNO MARROM


Cenas da peça teatral Matter Dolorosa, Lia Langsdoff, Gabriel Carlos, Armando Melo e Willlian Ferreira, 

Entre o final da década de 50 e principio de 60 em Candeias existiu um grêmio teatral amador que tinha o nome de “Grêmio Teatral Monsenhor Castro” idealizado pelos amigos, Gabriel Carlos, João de Sousa Filho e Antônio Macêdo. ---- Neste mesmo tempo, havia outro grupo, do Sebastião Quirino, cujas peças eram de sua autoria. Antes, porém, bem antes, já teriam existido diversos grupos teatrais que vinham desde os tempos do Sr. Bernardo Bonaccorsi e sua Esposa Dona Nica. ----

O Grêmio Teatral Monsenhor Castro quando apresentava uma peça tinha a renda convertida para a Sociedade São Vicente de Paula; e posteriormente para as obras de construção da nova Matriz. --- Os idealizadores do grêmio formavam a trupe efetiva de atores. Porém a cada peça surgiam novos atores tendo em vista a afinidade da pessoa com o papel a ser atuado.

Entre os participantes das diversas peças levadas ao palco, podemos citar os seguintes atores protagonistas e secundários, exceto figurantes: Gabriel Carlos, o diretor, Antônio Macêdo, João de Sousa Filho, Lia Langsdorff, Maria Amélia de Castro, Ivanilda Vilela, Claudete Freire, Willian Ferreira, Zé Delminda, Cristovão Teixeira, Zé Mori, Wanderley Alvarenga, Edson Chagas, Armando Melo de Castro, Antônio Sidney de Sousa (Titoco) Hilton Vilela, Darlene Alves, Luiz Bonaccorsi Neto, Joãozinho Cassiano e muitos outros. --- Na peça Os “Transviados” atuou num papel de destaque a professora Marli Pacheco, de Campo Belo, nesse tempo residente em Candeias, esposa do amigo Alceu Pacheco. Foi uma atuação brilhante.  

Infelizmente a maioria das peças assim como “A Escrava Isaura” “O Louco da Aldeia” “Os Transviados” “Rosa do Adro” e outras não ficaram nenhum registro nem escrito e nem fotográfico, lamentavelmente.

Tenho muito bem guardados em minha memória até alguns trechos dos textos decorados em todas as minhas participações. É uma boa lembrança que qualquer um que tenha participado disso, com certeza, terá sentido uma saudade boa de sentir. Afinal, o teatro é uma mentira e viver fora da nossa realidade é como uma viagem a um mundo desconhecido. Principalmente no meu caso que só fiz papéis de bonzinho. ----

Gabriel Carlos era o diretor. E muito se orgulhava disso. Fazia sempre o papel central da peça, ou seja, quase sempre o mau-caráter. Se alguém lhe perguntasse o seu nome, ele dizia: Meu nome é Gabriel Carlos da Costa, mas eu não uso o Costa. E depois Gabriel Carlos é o meu nome artístico... De quando em vez, aparecia no ensaio meio turbinado de “João Marques” e dizia: “Eu aqui não sou diretor, sou um lava-cachorro. Ninguém me respeita.” Mas os goles nunca atrapalhavam os seus ensaios, apesar de deixa-lo demasiadamente eufórico e falador.

Tinha ele dois ternos bons que só eram vistos quando por ocasião de representar uma peça teatral. Era um terno marrom e um azul. Ele sempre dava um jeito de usar os dois ternos em dois atos. Dizia sempre que o terno marrom era de uma casimira superior e que se lhe tinha custado uma nota preta. O outro, conseguido num consórcio do Chiquinho Alfaiate, teria sido mais barato.

Naquele tempo era obrigação de cada cidadão ter pelo menos um terno, ou seja, paletó, calças e colete. Esse era o traje que as pessoas reservavam para quando fosse ser enterrado. Hoje uma cultura dispensada.

Lembrando-me da peça “A Ré Misteriosa” não me foge a memória a protagonista, amiga Lia Langsdorff irmã do Jesus Langsdorff, uma moça muito bonita, excelente atriz e inteligente como todo Langsdorff. Foi uma atuação brilhante dessa amiga que logo se mudou para Goiás e eu nunca mais eu a vi. ---- E o Gabriel Carlos o mau-caráter da peça, que indiscutivelmente entendia do assunto. O personagem de Gabriel era assassinado e teria que cair no palco. E com isso foi a sua maior preocupação, estar neste ato, com o terno azul. --- Nas discussões sobre o vestuário, durante os preparativos da peça, era infalível este comentário: “Ai eu estarei com o meu terno marrom”.

Um dia ele me disse:

“Ninguém nunca me viu com o meu terno marrom fora do palco. Ele é reservado, exclusivamente, para o teatro.” E fazia questão de realçar: “São poucas as pessoas que têm um terno igual àquele” dissera isso por mais de uma vez para mim. Parece que a sua adrenalina subia quando se via dentro daquele terno.

O fim da vida de Gabriel foi dramático. Vitimado pelo câncer, faleceu antes de completar sessenta anos. O final de sua vida foi marcado pela pobreza e apenas com a ajuda dos parentes e amigos. Não teve uma aposentadoria, não tinha nenhum tipo de recurso financeiro e, já velho e doente, não tinha mais forças para trabalhar. Naquele tempo, o serviço social ainda deixava muito a desejar e não era como nos dias atuais.

Estive presente no seu sepultamento. Foi muito triste vê-lo morto e sendo enterrado numa cova rasa. Eu que o vi morrer por duas vezes nas peças teatrais, agora não era teatro... Agora, ele estava morto de verdade, um dos meus maiores amigos, com quem eu tanto aprendi quando com ele trabalhei de pintor de paredes. Agora morto, dentro de um caixão sem flores, vestido com o seu tão querido terno marrom o qual estava perfeito no seu corpo, graças o emagrecimento que a doença lhe proporcionou.

Conclui naquele momento que o meu amigo, o meu grande amigo Gabriel Carlos, viera a esse mundo, apenas buscar um caixão e aquele terno marrom.

Finalizando o meu texto, fecho os meus olhos, concentro-me e busco na minha memória o meu amigo Gabriel alegre, sorridente e bem vivo, falando do seu terno marrom.

Que Deus o tenha meu bom amigo!

 

Armando Melo de Castro
Candeias MG. Casos e Acasos

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A LIMA-DE-BICO

ESTE TEXTO FROI TRANSFERIDO PARA O LIVRO CANDEIAS MG CASOS E ACASOS.


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

MEUS COLEGAS DE ESCOLA


                              Escola Estadual Padre Américo

  Este texto foi transferido para o livro Candeias MG  casos e acasos.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

DOCE DE BICHO DE GOIABA






Por volta do ano de 1957, quando eu contava com meus onze anos de idade, minha família teve uma residência provisória, na Rua José Furtado, que liga a Rua Coronel João Afonso à Praça Ilídia Cardoso Freire, no Bairro da Gruta. Naquela oportunidade, eu convivi com um grande pé de goiaba que ficava na divisa entre a nossa morada e a de um vizinho, chamado Balbino.

Balbino, natural da cidade de Formiga, teria vindo para Candeias a fim de trabalhar como cortador de pedras para as obras de calçamento que se iniciavam, então, por ocasião da gestão do Prefeito José Pinto de Resende.

Viera acompanhado de sua família: sua esposa Dica, seu filho Idelfonso e suas filhas, Rosa e Maria do Carmo e a netinha Ingred. ----- Contava uns cinquenta e poucos anos de idade, mais ou menos. Moreno escuro, alto, cabelo ruim, mal barbeado, sorridente a mostrar uma falha de dente, no maxilar superior. Falava alto. Aliás, na sua casa, todos falavam alto. A vizinhança tinha conhecimento de tudo o que se passava no seio da sua família.

A mulher gorda, cabelos embaraçados, trajando sempre um vestido cor de terra “bate-e-enxuga” tinha um problema na visão e estava sempre usando uns óculos escuros. Um dia, eu a vi sem os óculos e observei que era caolha.

O filho mais velho, o Idelfonso, era viúvo, tinha perdido a mulher no parto da filha Ingrid. (Não sei onde arrumaram este nome – Talvez tenha sido uma alusão à Ingrid Bergman...). Essa netinha era criada pelos avós.

Rosa era gordona. Cabelo curto, seios enormes, achava graça de tudo e ria alto chamando a atenção dos outros. Não tinha namorado e já contava a idade das balzaquianas. Dizia sempre que não era chegada na fruta, chamada homem.

Maria do Carmo, a caçula, era a mais silenciosa e a de melhor aparência. Tinha um namorado metido a cantor sertanejo que, de quando em vez, aparecia por lá com um violão e o seu prefixo musical era a moda de viola “Ciganinha”. A sua voz de taquara rachada, sem nenhuma tessitura, já andava ferindo os ouvidos de toda a vizinhança, principalmente, nos dias de bebedeira. Chamava-se Otávio, tinha cara de otário e era tratado de Tavinho. 

Tavinho era uma figura chocha, sem sal. Gostava de uma camisa vermelha e tinha o cabelo longo coisa, então, da moda jovem da época. Aos domingos, sempre chegava com uma garrafa de pinga, algumas de cerveja e um pedaço de carne. Aquilo era como que uma isca para ganhar o sogro que era demasiadamente avarento, mas gostava de molhar o gogó com uma pinguinha e estercar-se com um pedaço de carne regado à cerveja. Mas, isso, naturalmente, quando de graça, porque o velho parecia que mantinha um escorpião nos bolsos. 

E não só ele gostava da cangibrina, como, também, toda a prole apreciava o bochecho. E quando todos ficavam embriagados, o velho se danava a falar palavrão e a velha a cantar desafinada com o genro. ------ A Rosa a dar risada e o Idelfonso a bater no fundo de uma panela. A única a falar pouco, era a Maria do Carmo, a pretendida do patrocinador daquele banquete romano.

Balbino era notável pela sua avareza. Comprava tudo de meio em meio quilo e quando lhe pedia algum dinheiro estava sempre reclamando:

---“Oceis tá gastano dimais gente! Os trem tá muito caro sô. É priciso incunumiza muncado, sinão nóis vai é passá fome. Ocêis tá cumeno fora das midida”.

O velho era bravo e, quando a mulher arriscava a lhe dizer para deixar de jogar no bicho, ele quase lhe batia e dizia:

--- Jogo sim! E ninguém tem nada quisso. Os cobre é meu e pronto...

Voltando ao pé de goiaba, na divisa entre o nosso quintal e o deles, havia um grande pé de goiaba cuja carga, naquele ano, teria sido bastante carregada. O cheiro da goiabeira ia longe e era goiaba para todos os lados. Porém, cheia de bichos.

Certo dia, como as portas das nossas cozinhas ficavam próximas, ouvi quando a Dica disse para a netinha Ingrid:

--Hoje eu vou fazê um poquinho de doce de goiaba procê... Só que ocê vai tê qui me ajudá a catá os bicho...

Daí a pouco, vem chegando a Rosa:

--- Que qué isso mamãe, vai fazê o quê quessas goiaba?
--- Um docinho pá Ingrid...
--- O quê? A siôra ficô doida? Isso nem é goiaba, é bicho puro...
--- A Ingrid vai me ajudá a catá os bicho...

Logo depois, vem chegando o Idelfonso, pai da Ingrid: 

---O que é isso mamãe, vai fazê o quê quessas goiaba, cheia de bicho?
--- Um docinho pá Ingrid... 
---Mas mamãe, isso não é goiaba. Isso é o puro bicho. É mais fácil comprar um pacotinho de doce pronto... Quem vai comer isso?
---A Ingrid vai me ajuda a catá os bicho...

Daí a pouco, vem chegando a Maria do Carmo:

--Que é isso mãe? Vai fazê o quê quessas goiaba bichenta?
--- Vou fazê um docinho pra Ingrid, ela vai gostar...
---Mãe, que ideia ruim, Issso num é goiaba, Isso é o puro bicho e a senhora não enxerga bem...
---A Ingrid vai me ajuda a catá os bicho...
---Eu não como isso, nem se me matá...

Finalmente, chega o Balbino:

---Qué isso Dica? Ocê num tá pensando em fazê doce de bicho de goiaba não, né?
---É só um poquinho, Bino. É pra Ingrid... 
---De jeito ninhum! Açuca tá custano muito caro e quem compra é eu...
---Tadinha Bino, ela nunca cumeu e vai gostá...
---E ocê vai dá doce de bicho pra minina, muié? E dispois isso aí nem é goiaba. É mais bicho do quê goiaba.
---Tadinha Bino, ela nunca cumeu e vai gostá...
---Tadinha Bino... Tadinho do meu borso, com açuca caro pra doce de bicho... E ocê quessa vista ruim, nem vê os bicho. E quem é qui vai cume, isso?... Eu num como...
---A Ingrid vai me ajudá a catá os bicho...
---Cunversa fiada. A minina tem quato ano e vai catá bicho?!... Deixa de enrolo...
---Eu vou fazé sim, Bino. Mas, é com o dinherinho que ela ganhô do padrinho dela...

Alguns dias depois:

---Uai, Dica, a Ingrid num cumeu o doce não?
-- Cumeu só um poquinho, a falazada dos bicho ispantô ela.
--- E ninguém quis cume, não?
---Não, ninguém quis não...
---Intão eu vô cumê, pra num perdê...

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.