Total de visualizações de página

domingo, 1 de maio de 2016

O FRANGO ROUBADO!

                                     Gabriel Carlos       

Gabriel Carlos foi um grande amigo meu! Tínhamos divergências, mas como havia entre nós uma diferença de trinta e cinco anos de idade, eu não tinha coragem e nem peito para lhe contrariar. E, quando eu arriscava um olho e lhe encarava ele ficava bravo. E depois ele era o meu mestre.

Gabriel era pintor de parede. Esnobava-se por ter pintado as melhores casas de Candeias: casas dos Furtados, do João Pinto, Dr. Renato, Dr. Zoroastro, ou seja, de todos os ricos de Candeias na época.

Era tido como o melhor pintor em Candeias até que um dia apareceu Paulo do Sudário, um candeense que teria sido peão de obra lá em São Paulo e aqui chegou como quem tem um olho na terra de cego. E daí, deu-se início a uma concorrência, ou melhor, uma guerra fria, onde um vigiava o serviço do outro, fazendo com que a defectibilidade de um era comentário para o outro.

Paulo era mais jovem, mais atualizado, pois teria trazido para Candeias o recém-inventado rolo para pintura de paredes e descoberto a massa plástica, até então desconhecida. Gabriel insistia com as brochas de capim e as trinchas de cabelo. Achava que o rolo seria a desgraça dos pintores, isso porque o que se gastava um dia para pintar com os seus pincéis, com o novo instrumento, poderia ser feito em duas horas.

Quando Gabriel tomava umas pingas, aí então, a língua comia solta:

----“Aquele dentadura quadrada não sabe pintar merda nenhuma. Fui eu quem pintou as melhores casas de Candeias. Ele não passou de um lavador de brocha, lá em São Paulo”.

Do outro lado, sempre vinha o rebate:

----“Coitado! Ele devia era dar uma cheirada no meu sobaco! Ele pode entender de tudo, menos de pintura. Eu aprendi na capital de São Paulo e, por isso, sou um grande profissional”.

O que os dois tinham em comum era a falsa modéstia. Como profissionais de pouca têmpera, ambos não se intimidavam em auto se elogiarem.

Tínhamos, em Candeias, um Grêmio teatral, cujo diretor cênico era o Gabriel. E eu também era participante desse grêmio.  Certa vez quando preparávamos um cenário para uma peça de teatro, e eu pintava o cenário feito de papel aproveitado de sacos de cimento, Gabriel, observou o meu tato com os pincéis, chamou-me para trabalhar como seu ajudante. E fui. Ele já tinha alguns problemas de vista. Teria feito uma cirurgia e, com isso, certos recortes da profissão ele não estava conseguindo fazer bem feito. E eu, além de jovem, tinha facilidade na execução da tarefa. Assim, tornei-me seus olhos, como ele sempre dizia. Daí, o nascimento da nossa grande amizade.

Gabriel residia com a sua irmã, Alvarina, e com a sua sobrinha, Dejanira, na Praça da Fraternidade, hoje, Nestor Lamounier.  Era solteirão. Não se casou. Alegava não ter se casado, pois nunca teve estabilidade financeira e era o filho que cuidava da mãe, enquanto viva. Mas, eu cá comigo, acho que ele tinha mesmo era uma paixão recolhida, coisas de amor antigo.

Quando a sua irmã, Alvarina, ia visitar a sua filha, “Negrinha”, residente nos Pereiras, e se fazia acompanhada da sua outra filha, Dejanira, era como as gatas viajando e o rato tomando conta do pedaço. E, assim, dizia:

“Armando, o povo lá de casa vai pra roça. É hora de nós comermos aquele franguinho que eu aprendi como se fazia a minha mãe. Primeiro, nós vamos bebendo uma pinguinha e tirando o gosto com os miúdos e bebendo um caldo do cabidela enquanto vai cozinhando”.

Numa dessas vezes, eu propus pagar o frango. Afinal, eu também estava de rato e deveria ratear no que ele contestou:

--- Não. Este será o frango mais gostoso de todos que já comemos até hoje. Nós não vamos pagar nada.

---Como assim?

---Esse frango, todo dia, pula para o quintal lá de casa, é lá do Vicente Santana. (os fundos se encontravam.) Você vai saborear um frango roubado, vai ver a diferença.

---Mas, o que é isso Gabriel? Você vai roubar um frango do Vicente!? Você ficou louco? Não acredito!

E ele, já com a língua meio enrolada pelas “biritas”, disse:

---Roubar é uma palavra muito pesada para o meu vocabulário. Eu nunca roubei nada de ninguém. Sou um homem honesto. Agora, se o frango pulou pra cá, na ausência da minha irmã, a mim cabe julgá-lo culpado ou inocente e a minha sentença é faca na goela e tampa na panela.

Eu pensei que aquilo fosse uma ideia infeliz que tivesse passando pela cabeça do meu amigo, talvez, no outro dia já teria mudado de ideia. Ou estivesse brincando.

 Aquela ideia trombava com tudo que eu teria aprendido com os meus pais e com a opinião que eu sempre tivera dele. Mesmo contrariado não faltei ao jantar com o frango roubado. Ele preparou uma grande bacia, armou como arapuca e pegou o frango. Um frango muito bonito e que poderia  vir a ser um lindo galo.

Sangrou o galináceo, depenou-o e com muita habilidade e asseio temperou, jogou na panela e logo já começamos a tomar pinga e cerveja, e se esnobando de ter  acabado com a vida do pobre frango invasor de propriedade alheia.

Cada pedaço daquele frango me fazia cheio de remorsos. Afinal, puxa vida, que ideia ruim aquela do Gabriel. Amanhã, o vicente dando falta do frango, claro, ele seria o primeiro suspeito... 

E eu pensava: quem diria, o Gabriel ladrão de galinha!

Comi aquele frango com uma boa dose de remorso, mas comi. Afinal, o pecado era só dele e ele não estava nem aí. E como estava gostoso!... Esse foi o último frango que comemos juntos. Logo ele ficou doente vindo a falecer.

Gabriel foi um amigo paternal. Como ele não teve filhos, me tratava como filho. E eu sempre vi nele, também, um pai. Sempre me aconselhando, orientando-me e com isso aprendi com ele muita coisa boa. Mas essa do frango, realmente me deixou decepcionado e silencioso.  Afinal, roubar um frango de um vizinho... Aquilo não ficava bem para o meu amigo que me pregava tanta moralidade.

Dias depois, ao passar na porta da casa do Vicente Santana, ele me perguntou:

---E o frango, Armando? Tava gostoso?

Eu gelei! Meus Deus, é agora!

---Que frango,  Sô Vicente?

---O meu frango que você e o Gabriel mataram.

E eu perdido, um rapazola bobo, sem maldade na cabeça, totalmente desorientado, envergonhado, decepcionado, naquele abismo de emoções culposas, quase desesperado, neguei:

---Eu não sei de frango não, Sô Vicente... Frango?

---Estou sabendo que você e o Gabriel mataram um frango meu e fizeram uma farra, quando a irmã dele foi para a roça...

----Eu não comi frango do Sr. não Sô Vicente! Eu não vi nenhum frango não!

E o Vicente depois de se divertir bastante, completou:

----O Gabriel queria me comprar o frango que vivia mais no seu quintal do que no meu e eu lhe disse que poderia matá-lo para vocês, no dia em que a Alvarina fosse para a roça.

Que alívio, Meu Deus! Mas quase morri de vergonha por ter negado. Corri para encontrar com o Gabriel e condená-lo pela brincadeira de mau gosto. Quando ele me disse:

----“Eu pedi ao Vicente para lhe passar um aperto. As pessoas honestas precisam sentir para ver, o mau da desonestidade.”

E eu com raiva disse: Isso é que se pode chamar de sacanagem!

Durante muito tempo Vicente sempre se recordava do susto que me passou e comentava: “E o frango Armando”? E eu quase morria de vergonha, por ter negado que não sabia de nada.

Passei a entender que os ensinamentos precisam ser colocados em prática, não basta apenas a teoria.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

Nenhum comentário: