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sábado, 1 de junho de 2013

UM QUEBRA-PAU FAMILIAR.

Foto para ilustração do texto.
No ano de 1960, minha família se transferiu da Rua Coronel João Afonso para a Rua Vereador José Hilário da Silva. Naquele tempo, denominada Rua Dr. Gabriel Passos. Gabriel Passos, natural de Itapecerica, foi um dos grandes homens públicos de Minas Gerais. Quando Secretario de Estado ajudou, sobremaneira, o Dr. Zoroastro Marques da Silva a emancipar o nosso município, na época, distrito de Campo Belo. A troca do nome dessa rua foi um gesto lamentável e desatencioso dos vereadores que compunham a Câmara Municipal de Candeias, na era do Prefeito Raimundo Bernardino de Sena Filho, conforme já comentamos no texto editado, neste blog, com o título “Um cuspe no prato”.

Entretanto, voltando ao assunto de nossa mudança da Rua Coronel João Afonso para a Rua Dr. Gabriel Passos, eu me lembro que os nossos vizinhos da casa de baixo na qual reside, atualmente, a família do Sr. Joaquim Caroca, eram provenientes da roça. Pessoas de bem e amigas, contudo, demasiadamente, briguentas e impulsivas entre eles. Já teriam sido nossos vizinhos, mais distantes, na Rua Coronel João Afonso. Todavia, no novo endereço, éramos vizinhos de porta a porta. E eu gostava muito de ficar da janela do meu quarto apreciando as discussões, as contendas, brigas e assuntos entre eles que falavam alto e num linguajar bem peculiar do pessoal mais antigo e da zona rural. Lembro-me de que certo dia eu fiquei ouvindo atentamente uma questão entre eles pouco resolvida:

Maria a irmã mais velha:---  Tereza! Ô Tereza levanta atentada! Já é quais oito hora trem!  Assim num vai né, essa ruada fica atrais de home nesses pagode da máquina do Joãozinho. Assim num vai dá. Chega tarde e cedo esse trem num sai da cama e eu qui tenho que fazê tudo. Tem rôpa pá lavá... Tem cumê pá fazê... Tem horta pá aguá... Tem terrêro pá barrê... Casa pá limpá... Assiim num dá... Só eu qui trabaio aqui nessa casa uai...

Mãe:---   Carma Maria! Dexa ela durmí mais muncado! Ela é mais nova e tem qui distraí. As veis uma hora ela arruma um home ai e ajeita a vida dela. Se ela num sai ela num vai arrumá um namorado.

Maria:---  Qui Mané distraí coisa ninhuma mamãe! Qui mané arrumá home! Ondé qui ela quesse jeito de cão vai arrumá home. O Nego do Sudré já tacô o pé na bunda dela num foi atôa.

Zé Barbeiro o irmão:---   Gente ocêis pára quessa latumia... Desse jeito os vizinho iscuta tudo. Uai ta doido qui falazada!!!. Ah meu Deus do céu!

Maria:---  Portamilá se vizinho iscuta. Eu num como na casa deles. E dispois oceis num vê qui quem trabaia aqui incasa é só eu. A Tereza quessa ruança dela num sai do cio...

Mãe:---  Para quisso Maria... Onde já se viu falá assim duma irmã sô? A hora qui ela levantá ela ajuda.

Maria:---   Ajuda niquê? Já é mais de oito hora e nada de levantá e o sirviço ta i ó!

Zé Barbeiro:---  Eu acho qui ocê tamém tá pricisando de arrumá um home Maria. Essa sua nirvusia num ta certa não. Parece qui ocê ta é  cum inveja da Tereza purque ela sai e dá seu jeito e ocê só fica inferrujano dento de casa...

Mãe:---   Cala a boca zé... Ocê arrespeita a sua irmã. Ele é uma moça direita.

Maria:---   Cala a boca mêmo Zé. Ocê falano de mim? Ce divia passá a mão na cabeça e oiá os seus chifre.

Mãe:---   Para quisso Maria. Num fala assim do seu irmão não.

Chega a Tereza que acaba de se levantar e começa:

Ê Maria ocê cumeçô cedo hoje a inche minha pomba hem?! Qui inveja qui ocê tem de mim hem?! Qui vontade qui ocê tem de porvá o gosto do inhame hem?! Ocê deve até sonhá com um inhame bem grande hem?! La no pagode da Máquina do Joãozinho tem um cabôco lá que tem um  pé 44. As muié qui já viu o pé dele fora da butina diz que o inhame dele é do tamanho do pé. O apilido dele é jumento. A hora que ele chega lá na máquina fica todo mundo falando, “ Alá o Jumento”. Ele tava bão procê Maria. Eu quiria vê se ocê num parava com esse injuamento se o jumento dexasse ocê dá uma coçada no inhame dele.

Maria---   Cala a boca trem ruím...

E eu, que era um adolescente bobo e não entendia nada, demorei ainda muitos anos para traduzir esse linguajar então desconhecido.

Armando Melo de Castro
Candeias Casos e acasos.





Um comentário:

Giuliano disse...

coçá o inhame, kkkkkkk