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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

MEMÓRIAS DE UM ADOLESCENTE


Foto para ilustração do texto.  
Eu contava dezesseis anos de idade e nunca havia arrumado uma namoradinha. Era um menino tímido, muito tímido. Melhor dizendo, bobo, muito bobo. É claro que já teria melhorado muito, em comparação com o tempo de escola, quando estudei no Grupo Escolar Padre Américo, hoje, Escola Estadual Padre Américo. Naquele tempo, eu me limitava a conversar, apenas, com os meus colegas de carteira. Isto é, os bancos escolares tinham acento para dois alunos e eram chamados de carteira.

Na adolescência, continuava fechado como um cadeado emperrado. E, quando via os meus contemporâneos acompanhados ou contando as suas proezas, eu sentia, até mesmo, uma ponta de inveja vendo a coragem que eles tinham de chegar, conversar e cantar um namoro. Eu cheguei a pensar que jamais aquilo iria acontecer comigo. Às vezes, ouvia a minha mãe dizer: “O Armando é tão tímido!”. E eu, cá comigo, pensava: eu sou mesmo é um bobão... Um baita dum poltrão... Com esse meu feitio retraído, vou acabar ficando pra tio... Isso, se eu não morrer disso!...

Sempre algum colega dizia ter ido ao cinema com alguém a quem teria dado deliciosos beijos, no escurinho do cinema. Os mais ousados, talvez mentirosos, também, comentavam que suas mãos passearam dentro de um sutiã recheado. E aquilo, às vezes, me deixava incitado e babando. E eu perguntava aos céus: Meu Deus! Quando isso vai acontecer comigo?! Perguntava a mim mesmo: Que gosto terá um beijo no escurinho do cinema?. Como será o tatear dum recheio de sutiã?

Minha cabeça parecia mais uma dorna transbordando o fermento cerebral de um mosto composto de insegurança, vergonha, medo, angústia e tudo mais que inferniza a vida de um adolescente sem critério e desnorteado.
Certo dia, por ocasião das barraquinhas da igreja, quando me encontrava encostado num canto da barraca de bingo, aproximou-se de mim a Sueli, filha do Dondico, mocinha, minha vizinha, e, com aquela sua carinha lambida, disse:


---Armando, tem uma moça que está doida por causa dôce.
---O quê?!


Perguntei, assustado.

---Tem uma moça que tá querendo encontrá com cê, sô!

--Quem é ela, Sueli?

--Diz que chama Mariquinha.

--Mas, que Mariquinha é essa?

--É da roça.

--Mas que roça?

--Sei não... Eu sei que ela tem vontade de levar um “trato”.

--Onde ela está? Perguntei.

--Atrás da igreja e quer que ocê vai lá.

Isso foi o suficiente para que o termômetro do meu cérebro chegasse ao ponto vermelho. Fiquei mais esperto do que um carcará faminto. Transformei-me num sorridente feliz. Parecia que a felicidade chegara gritando. E, se um psiquiatra me visse, talvez, diria: “Eis aí um caso de bipolaridade.”

Saí dali. Passei na barraca do quentão e lá estava o velho “Joaquim Catingudo” servindo a bebida liberada. Tirei do meu bolso os únicos cruzeiros que possuía e mandei encher um copo de quentão. Bebi. Sobrou dinheiro, pedi mais uma copada. Bebi. Precisava encher-me de coragem e o quentão faria isso.

Começo a zoar. Fiquei zoando como uma mosca verde ou um marimbondo preto. E, neste estado de espírito, caminhei rumo aos fundos da igreja, atrás da sacristia. Era como se caminhasse para os céus. Perguntava a mim mesmo: O que faço? Como falar? Como beijar? Como apalpar? Meu Deus, me ajuda! Ajuda-me, Meu Deus! E cheguei lá.

Encostada na parede dos fundos do templo, entre valas da reforma da igreja, lá estava, sabe Deus, a donzela a esperar-me sorridente na penumbra entre luzes dos postes e a escuridão da noite.
Eu não tivera tempo de imaginá-la. Aproximei-me. Todo desajeitado! Sem saber o que falar e pedindo a Deus para que ela me fizesse interrogado. E Deus me ajudou.

Vestida a rigor como se fosse fazer a primeira comunhão naquela noite, vendo-me, sorriu. E, diante do seu sorriso, vi que não trazia no rosto a pureza de uma donzela, mas sim, uma escancarada e libidinosa ansiedade. Lá estava ela a me esperar.

Rosto pintado com exagero. Parecia que teria visto batom pela primeira vez. Seu rosto miúdo exaltava duas rodelas de ruge combinando com os lábios. Seus cabelos curtos e mal penteados dava a entender de antemão a má intenção da garota, uns três ou quatro anos mais velha do que eu. A cabrita cor de cuia não perdeu tempo. E antes que eu lhe fizesse a corte já era cortejado.
Perguntou-me se eu tinha namorada. Rapidamente, disse que não... E gostaria de ter dito: Não, não e não. Depois quis saber da minha idade. Dezesseis, respondi. Lamentou o fato de já ter dezenove. Disse-lhe não ter importância.
Naquele tempo, eu nunca havia ouvido falar que panela velha dá caldo grosso. Mas, eu estava lá para isso? Eu queria era me explodir dentro de um sutiã. Fazê-la perder o fôlego com um beijo bem doido. Era a primeira vez. Primeira vez na vida!...

Custei a criar coragem de começar a fazer perguntas. Mas, a experiência da grande pequena foi deixando-me tão à vontade que eu já conseguira até mesmo dar um sorriso onde eu mostrava os dois principais dentes do meu maxilar superior, escurecido graças uma negligência do então dentista, padrão magarefe, Cristóvão Teixeira.

O quentão foi subindo, subindo como um balão de São João. A coragem foi chegando juntamente com a vontade de sufocá-la com um beijo. Foi quando ela disse, sorridente: Nossa! Como você é apressado, hein?! Ataquei! Ataquei para valer. Mas, que surpresa! Eu abri a boca e avancei como se fosse engolir a garota que desesperada e sufocada desorientou-se quando algo foi ao chão. Ela agacha e começa a procurar e eu pergunto: O que foi que aconteceu? E ela responde: Não é nada não. Mas, como não era nada se ela estava desesperada. E eu, que aos dezesseis anos já era fumante, providenciei ascender um fósforo. E pude ver, bem perto dos seus pés, uma dentadura com um fio de ouro interligando dois dentes.

O desconforto foi total e ela, desesperada, apanha a sua prótese, tenta limpá-la na roupa e vai colocá-la de novo quando eu grito: Não! Não! Aqui foi cemitério! Você terá que lavá-la, bem lavada, antes de usá-la novamente.
Diante dessas palavras, vi quando brilhou, em seus olhos, duas lágrimas transfigurando o seu rosto, até então, irradiando alegria.

Daí, eu a vi afastar-se de mim, trilhando-se sobre a escavação das obras da igreja e tomando rumo à Rua Salatiel de Carvalho esvaindo-se, diante dos meus olhos, envergonhada, frustrada e desolada.

Durou pouco. O encontro imaginado durou muito pouco. Eu, que supunha ter ido ao encontro da alegria, havia plantado a alegria e colhido tristeza. Tudo por causa da minha inexperiência de vida e por não saber conter os meus ímpetos. Aquilo que tinha a cara da felicidade tornara-se numa máscara atroz.
Não foram mais que quinze minutos e eu não senti o sabor do beijo e nem apalpei nenhum recheio. Eu estava decepcionado comigo mesmo.

Enquanto ela se encobria pela Rua Salatiel de Carvalho, fui tomado de um remorso profundo. E, diante disso, tive vontade de correr atrás dela e abraçá-la, carinhosamente, pedir-lhe perdão, acariciar o seu rosto entristecido, tocar à sua cútis, com meiguice. Mas, não tive coragem. Fui covarde.

Desconsolava-me o fato de ter sido ela a me procurar. E o remorso apertava enquanto eu retornava ao mesmo lugar a encostar-me na barraca do bingo. O quentão já dava sinais de uma forte dor de cabeça.

Nunca mais pude vê-la. Não soube de qual família pertencia. Sempre a procurei com os olhos nas aglomerações, mas nunca mais a vi.
Acho que, por um minuto, apenas um minuto, eu amei aquela criatura e como foi bom amar pela primeira vez, pena que foi à custa do arrependimento.



Armando Melo de Castro
candeias MG Casos e Acasos



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