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segunda-feira, 29 de maio de 2017

O RETRATO DA MORTE

                                                  Foto para ilustrar o texto
Navegando pelas profundezas da minha memória, encontro-me com o dia em que tive o primeiro contato com a morte. Com certeza, foi o pior dia da minha alegre infância, eleito pelo meu coração. Até então, eu não teria conhecido e nem tido a noção do que seria a morte. Eram tantas as coisas boas para pensar que não me sobrara tempo para saber disso. Não aflorara, ainda, a minha curiosidade. E, felizmente, não me teria sido dada essa triste oportunidade.

Meu pai, nesse tempo, teria transferido-se, juntamente com toda a família, para a comunidade dos Arrudas, abrindo em nossa residência, uma pequena venda. ---- Dois meses depois, chega um mensageiro trazendo a triste notícia da morte fulminante de meu avô.

Tenho nítido na lembrança o momento quando cheguei a sua casa, nas proximidades da Praça Antônio Furtado, onde hoje se situa o Centro Espírita Bezerra de Menezes. Foi ele o meu avô materno, Calito, o primeiro morto que eu vi, falecido na década de 50 quando eu contava sete anos de idade.

Posso ouvir, através da memória, o momento de desespero de minha mãe abraçando o corpo sem vida de seu pai. Portanto, este foi o primeiro impacto que tive quando soube que o meu avô seria enterrado em buraco fundo e eu, que tanto o amava, nunca mais o veria.

Naquele cenário fúnebre, eu via o meu queridíssimo avô inerte, dentro de um caixão roxo, sobre uma mesa. Vestido com um terno amarelado com o qual eu sempre o via indo à missa aos domingos. Tinha os pés unidos, amarrados com um lenço branco. Outro lenço rodeava o seu rosto e prendia o queixo para mantê-lo com a boca fechada. Na cabeceira, sobre duas cadeiras, queimavam duas velas amarelas fazendo arder um cheiro de cera que se misturava ao perfume das flores contidas em uma jarra próxima. Minha avó e minha mãe assentadas, ao lado do caixão, derramavam as suas lágrimas enquanto recebiam os pêsames das pessoas que chegavam. E eu, ali, absorto. Talvez, fosse a primeira vez que a tristeza mexia comigo.

No corredor, o canário-do-reino cantarolava como se a casa estivesse em festa. Canário que, todas as manhãs, meu avô supria de alpiste, água, ovo cozido e uma pequena folha de couve. Então, perguntei a Deus: agora, quem vai dar de comer ao canário que hoje está cantando tanto? Talvez, esteja até pedindo comida e se sentindo meio esquecido...

E as minhas perguntas para Deus continuavam: E as galinhas? Quem irá tratá-las? Quem quebrará os cupins do fundo do quintal para lhes alegrar o apetite? E a minha cabritinha, criada no quintal, e que fora um presente seu comprado do Dionísio Passatempo, quem lhe dará capim para lhe matar a fome? E as minhas balas? Minhas bolachas? E a minha mãe a quem irá tomar a bênção?

Assim, naquele conflito emocional, nunca sentido antes, perguntei a mim mesmo obtendo logo a resposta: E minha avó? Quem lhe comprará comida para sua sobrevivência? Automaticamente, respondi: é meu pai. Teria que ser meu pai! E quem dormirá com ela? Seria eu, teria que ser eu porque ela não terá ninguém e nós moramos na roça e isso, felizmente, aconteceu. Durante anos, eu fui a sua companhia.

Eu tinha sete anos de idade e nunca havia pensado que o meu avô era velho e que me deixaria daquele jeito indo para um buraco fundo ao ser enterrado, assim, tão de repente! Aquilo era a morte. Uma coisa que eu não conhecia. Uma ladra que nos rouba as pessoas que amamos. A morte que dói sendo uma dor sem nome.

É chegada a hora da saída do enterro. Minha avó e minha mãe, aos prantos, vendo fechar o caixão, enquanto alguém apagava as duas velas. Aquela porção de gente levando o meu avô, dentro daquele caixão roxo. As pessoas se revezando no transporte do caixão, enquanto outros rezavam o terço. Eu gostaria tanto de poder, também, carregar o meu avô, mas eu era uma criança.

Segurando a mão do meu pai ia ali assustado, sentindo algo que nunca havia sentido. Eu buscava uma explicação através de perguntas que não tinham respostas. Por que morrer? Por que ser enterrado? Ao chegar ao cemitério assisti dois homens colocando o caixão dentro de um buraco fundo. Com enxada e pá, foram cobrindo, para sempre, alguém que era tão importante para mim.

Aquele foi o primeiro retrato da morte que ficou cravado no meu cérebro inocente. Eu estive triste, mas, não chorei. Naquele tempo, eu não tinha, ainda, lágrimas para chorar.

Algum tempo depois, acompanhando a minha avó, fomos ao cemitério rezar na cova do meu avô. Chamaram-me à atenção os túmulos. O Cemitério São Francisco tinha poucos túmulos e a maior parte eram covas. Perguntei a minha avó o que eram aquelas casinhas e ela me disse: ali se guardam os ricos.

Assim, pela primeira vez, em minha vida, eu tive vontade de ser rico, apenas para poder ver o meu avô guardado e não enterrado.

Armando Melo de Castro

candeiasmg.blogspot.com
Candeias – Minas Gerais

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