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sábado, 23 de julho de 2016

SÍLVIO, O BOM PIOLHO.


Certa feita, quando eu visitava um dos meus irmãos na cidade de Itambacuri, na Região de Teófilo Otoni, eu entrei numa farmácia a fim de comprar um comprimido. Nesse meio tempo aparece ali, também, um cidadão do tipo matuto e irreverente que num tom de voz elevada, disse ao homem da farmácia com sotaque abaianado:

---Seu moço, o que o senhor tem ai pra mata pioio? Lá in casa tá uma pioiada danada. Tem pioio até nos óio. A cabeça dos minino virô um fregi. Eles tá tudo pió que um bicho sarnento. Parece até que a pioiada do mundo junto lá, piôio de cobra, piôio de galinha, de pombo, de pardar. Tá pareceno aquela sarna baiana que ele fala, quanto mais coça mais grana... Que trem doido sô fulano!!!

Após aquele discurso desdenhador sobre o piolho, eu tive a impressão de estar começando a me coçar por todas as partes do corpo, dada a ênfase apresentada por aquele homem, a respeito do tal piolho.

Pelo que me consta, essa praga chamada piolho agride o ser humano de onde sugam o sangue. Piolho é o nome dado aos insetos do grupo Phthiraptera o que significa achatado. Existem em torno de 3000 espécies. Não têm asas e são parasitas externos dos mamíferos e das aves. 

Os piolhos são classificados em quatro grupos:
Anoplura: É o sugador- é ele o piolho humano.
Rhyncophthirina: De facóqueros, elefantes etc.
Amblycera: São os piolhos mastigadores.
Ischnocera: Atacam as aves.

Quem nesta vida ainda não se viu infestado por piolhos?

 Lembro-me de quando eu era criança minha mãe ficava esfregando o pente-fino em minha cabeça e dos meus irmãos.  Como é que pode um bichinho tão pequeno incomodar tanto... Pensando bem, é muito difícil viver... É tanta coisa para azoratar a vida da gente... Como dizia o meu pai: “Ô pelo amor de Deus!”.

E aquele falatório sobre piolho levou o meu pensamento longe, bem longe...

Busquei nos labirintos da minha memória o nome de um candeense chamado Silvio. Silvio da família Souto, que tinha como primos o Antônio Souto, que serviu o Exercito Brasileiro na Segunda Guerra Mundial; o Everto do Alonso, o maior goleiro candeense de todos os tempos; o Dedé do Alonso, grande jogador do meu querido e amado Rio Branco Esporte Clube; o Bigode que era cantor e jogador de futebol, tendo ido parar no Rio de Janeiro e São Paulo. Bigode foi bem sucedido e chegou a cantar na Rádio Record em São Paulo. Mas desistiu e veio embora. No Rio chegou a jogar num grande time de futebol profissional. Mas, abandonou tudo isso, sem mais e sem menos, para cortar cabelo em nossa cidade.

Ninguém conhecia Silvio pelo seu nome. Era conhecido pelo apelido de Piolho e no popular era “piôio”. Apenas uma pessoa o chamava de piolho, o Monsenhor Castro. Os dois eram muito amigos. Nos campos de futebol, principalmente, nos jogos da Associação Esportiva Candeense. Nas festas da Igreja, barraquinhas etc. Piolho sempre estava ao lado do Padre, como um guardião do reverendo. Mas nunca era visto participando de um ritual religioso... Trabalhava no Matadouro Municipal, junto do Lico da Sinhana. Era um homem simples, que escondeu em si durante anos a sua benevolência; o seu caráter cristão e o seu amor ao próximo. Piolho era bem afeiçoado, mas de aparência muito humilde. Estatura mediana, rosto redondo, fala baixa e a barba cerrada mal escanhoada que lhe fugia o pescoço grosso.

Nas imediações da curva da linha, local conhecido por uma volta fechada da estrada de ferro que corta as nossas Candeias, situada nas imediações de um local denominado “Santinha”, certa feita, começou a aglomerar-se um bando de urubus, naturalmente aguardando o “urubu rei” para dar inicio ao consumo de uma carniça por ali. Alguém, que não se sabe quem, ao aproximar-se do local observou que se tratava de um homem morto cujo corpo já se encontrava em estado de decomposição.

O mau cheiro já exalava a ponto de se tornar insuportável. A polícia foi comunicada, contudo, o contingente policial, à época, consistia em um cabo e dois soltados. Como o cabo estava ausente, o comando estava sobre as ordens de um soldado que junto de seu companheiro estiveram no local e à distância, alegavam aos presentes terem “estômago fraco”. Apenas tomaram conhecimento de que o morto teria passado pela Estação Ferroviária, dias antes seguindo o caminho da linha, e lavraram uma ocorrência.

Naquele tempo a nossa sociedade era muito desorganizada. Não havia essa responsabilidade de hoje. Mais do que patente é o fato das coisas haverem melhorado e muito... Nos dias atuais o comportamento social é muito diferente... É muito melhor!...

A polícia tentava encontrar entre os curiosos ali presentes, alguém que tivesse a coragem de resgatar aquele corpo pronto para o “bico do urubu”. Mas, naquela hora, onde estavam os caridosos? Onde estavam os religiosos? Onde estavam os representantes da saúde? 

Se até a polícia enrolou quem mais iria dar conta de tal tarefa? Ninguém arriscava colher aquele pobre, mas, filho de Deus, num estado adiantado de putrefação. Ninguém ousava a tocar naquele corpo humano cujo mau-cheiro atraia a cada vez mais os urubus.

Aparece alguém com esta disposição deixando a população de Candeias toda surpresa. Silvio, o Piolho. Tomou-se de um cobertor, e com as mãos sem nenhuma proteção colheu os restos daquele homem cuja carne já começava a soltar os ossos. Saiu abraçado com aquela trouxa levando aquela encomenda de Deus para ser enterrada no Cemitério São Francisco.

Este foi o maior exemplo de caridade cristã que eu já pude presenciar até hoje na minha vida. Ninguém jamais pudera imaginar que Silvio, o Piolho, pudesse fazer aquilo. Ele sim pode demonstrar o que é amor ao próximo... O que é ser adepto de Cristo no cerne da filosofia cristã.

Portanto, Silvio, ou melhor, “Pioio”: Onde quer que esteja, receba o meu abraço, pois, com certeza, estará recebendo as bênçãos de Deus, como também, junto do Homem de Nazaré.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.



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