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quarta-feira, 20 de junho de 2012

MARIA E O JUMENTO.

            Foto para ilustração do texto.

A Rua Coronel João Afonso, em Candeias, continua viva na minha memória. Foi ali no número 306 onde me aportei no dia 16 de janeiro de 1946. Pelas mãos da parteira Dona Maria do Estevão. --- Esta rua mora dentro de mim. ----- E em todos esses anos, eu posso dizer que eu nunca perdi a sintonia com ela, afinal sempre foi e será o palco da minha vida.

Às vezes eu cerro os olhos e posso me encontrar com amigos e vizinhos como o Sr. Erasto de Barros, o Sr. Chico Freire, Vicente e Paulo Vilela, Passarinho, Antônio do Orcilino e tantos outros...

Hoje, o meu encontro foi com uma vizinha muito amiga de minha mãe que se chamava Maria do Nedino. --- Morava bem próximo de nossa casa e isso gerou uma boa amizade o que fez Maria convidar meus pais para padrinhos de um de seus filhos. --- Residia o casal Nedino e Maria com mais dois filhos, numa velha casa onde hoje está situada a casa de comercio do João Bigode.

Ela era uma mulher bonita, corpo mediano e meio cheio. Tinha as pernas bem feitas; morena de cabelos lisos tipo curiboca; rosto delicado, olhos negros e grandes, além de um sorriso lindo; porém, acanhado. Sua voz era forte e autoritária. Se lhe fosse dada uma dieta para perder uns quilinhos e um banho de loja, com certeza, poderia vir a ser a cabrita mais bonita de Candeias.

Seu primeiro casamento teria sido um escândalo. E ela nunca teria tocado nesse assunto com a minha mãe. Mas diante da curiosidade de minha mãe ela um dia resolveu contar:

Do segundo casamento nasceram dois filhos com pouco mais de um ano de diferença de idade. Andava com caçula no colo e o outro agarrado à sua saia. O primeiro era o afilhado de minha mãe.

Certo dia eu ouvi um diálogo entre Maria e Minha mãe. Nesse dia Maria resolveu matar a curiosidade de minha mãe.


---Como foi mesmo o seu primeiro casamento comadre Maria?

---Eu num gosto nem de lembra cumá Luca... Meu primeiro marido era um cavalo.

---Era bruto, comadre Maria?

---Não, cumá Luca, ele até era inducado!

---Uai, mas, então, não entendi!?

---Na verdade, ele num era bem um cavalo, era um jumento!

---Ih! Coitada!

---Cumá Luca, nóis casô num sábado as treis hora da tarde, em Bambui. Dispois, nóis foi tudo pra roça. Graças a Deus, meu padrasto fêis um festão pra nóis. A vizinhança da roça e muita gente da cidade tava lá. Veio um sanfonero de fora e o pagode foi à noite intera. 

----Ele era bonito comadre Maria? Especulou  minha mãe...

----Mais ó meno, era mei brancão, e eu qui sou misturada com preto ficou meio desiguar... E depois ele tinha um nome muito feio: Joziano, eu num sei onde arranjaro um diabo dum nome tão feio. --- 

Mais a festa cumá Luca, teve trem de cumê até chegá. A casa cheia de gente, e o diabo do home já com a cabeça meia cheia quereno ir deitá. Ainda tinha muito trem pá cumê e a torda ainda tava cheia de gente dançano. Mas o demonho só falava em  deitá.

---Ai ficou ruim mesmo... Disse a minha mãe.

---- Num é memo cumá Luca?... Ai ele danô a incharcá na pinga. Incheu o rabo até de madrugada. Já tava com aquela vóis mole, chegava perto de mim e falava arto me chamando pa deitá. E eu cumecei a fica cum vergonha do povo, tinha uns rino dele, e eu já comecei a matutá que o meu casamento tinha sido uma cagada cum tarado.

---- Coitada de você comadre Maria! 

---Quando o caminhão saiu levano o resto do povo, aí, cumá Luca, foi que a porca torceu o rabo. Tinha uns parente que ia posá lá em casa e eles ainda tava acordado. ---- Ai intão nóis foi deitá. Eu tava muito ressabiada e dispois era a primeira vêis que eu ia durmi com aquele demonho. Eu só casei quele de tanto o meu padrasto e a minha mãe falá que ele era trabaiadô, que tinha um pedaço de chão muito bão. 

---Que situação comadre Maria!.

---Não!!! iscuta só, na hora que eu puis a água na baciinha pra lavá as parte, eu tava meia ressabiada e quando eu fui apaga a lamparina ele num dexô. E o demonho ficou oiano eu lavá minhas parte. Eu perdi o jeito de tudo. Cabei de lavá, inchuguei, assim meio atrapaiada, paricia que eu tava nôto mundo e fui pra cama, morreno de medo. E a lamparina acesa ele num dexô eu apaga. E daí o diabo veio pá riba de mim. Cumade do céu!!! Eu pensei que eu ia morrê. Paricia um trem mais doido do mundo. Rancô até sangue dimim. Daí, eu levantei dipressa, com cara de choro e fui pará na cuzinha só de camisola. É cumá Luca, muié sofre dimais!!!
E ai, como ficou?

---Ficô que eu falei quele, pode prucurá uma ruaça, seu lugá é no zé bulinha, num quero sabe docê nem um tiquinho. E o meu padrasto farto poco pra me iscumungá.

E a curiosidade de minha mãe não parou por ai e quis saber do segundo casamento:  

 ---E no segundo casamento, Comadre Maria, correu tudo bem no primeiro dia? – Perguntou minha mãe.

---Correu, cumá Luca! No sigundo, o Nedino já é mais carmo, é bem mais véio, mais fraco e num é igual a um jumento não!

---Credo, comadre Maria, deve ter sido duro para você aguentar aquilo não foi?

---Duro!? Bota duro nisso cumá Luca... Bota duro nisso! O trem paricia um ferro quente.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos.






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