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quarta-feira, 20 de junho de 2012

MARIA E O JUMENTO.

            Foto para ilustração do texto.
A instituição do casamento está, a cada dia, deixando de lado aquela conotação antiga. A sociedade moderna vê o fim de um enlace matrimonial com naturalidade. O que outrora era um acontecimento relevante, hoje não é mais.
No passado, além dessas mudanças frontais ao casamento, havia, também, a dependência da mulher em virtude de sua ausência no mercado de trabalho. Nos dias de hoje, com a sua integração nesse espaço, as mulheres se tornaram mais independentes, mais conscientes dos seus direitos, o que as levam serem mais decididas.

De outra forma, as leis atuais acabam por proteger os filhos dos casais de forma plena. Os preconceitos aos filhos fora de uma união foram sanados e, apesar de ainda existirem, os filhos ao relento paterno, são poucos.

O casamento está sob a lei de causa e efeito. O amor, portanto, é a causa da estabilidade matrimonial e o que sobra é o efeito. Vínculos legais e religiosos já não prendem um ao outro. Assim é de forma essencial o sentimento responsável pela integridade de uma família feliz. Existem casais que vivem maritalmente e são muito felizes, outros legalmente unidos vivem aos trancos e barrancos.

Onde existe o verdadeiro amor, os problemas são superados. O amor permite perdoar, tolerar, deixar passar, enfrentar dificuldades inerentes ao ser humano. São pessoas distintas, vindas de famílias diferentes e, naturalmente, incompatíveis em alguma coisa. Portanto, é preciso o entendimento, a paciência, a tolerância, a aceitação e o bom humor.

E se no lugar do amor for colocado o individualismo, o egocentrismo, o personalismo, o subjetivismo, o ciúme exagerado, a falta de cumplicidade, a concorrência, com toda a certeza, uma união, nestes moldes, não irá se salvar. Não bastará um dos cônjuges querer ajudar. É preciso que haja uma entrega total de ambas as partes. Se somente uma parte do casal pergunta para si o que estaria fazendo ao lado do outro ou sentir que não está feliz, é chegada a hora, verdadeiramente, de partir para outra.

Evidentemente, cada caso será um caso. Esse meu ponto de vista, é claro, não se aplica a todo mundo. No entanto, são doutrinas mais antigas que hoje estão bastante desfalcadas. Entretanto, existem separações motivadas, também, por questões ferinas, senão vejamos:

Lembro-me de um casamento comentado no princípio da década de 50, quando a minha família morava na Rua Coronel João Afonso. Por ali, tivemos uma vizinha chamada Maria do Nedino. Ela morava numa casa sobre um barranco que existia onde está a loja do João Bigode. Era comadre de minha mãe.  Teria sido casada por duas vezes sendo que o seu primeiro casamento terminou logo nos primeiros dias, uma coisa raríssima para aqueles tempos.

Do segundo casamento nasceram dois filhos com pouco mais de um ano de diferença de idade. Andava com caçula no colo e o outro agarrado à sua saia, era o afilhado de minha mãe.

Maria do Nedino era uma mulher bonita, corpo mediano e meio cheio. Tinha as pernas bem feitas; morena de cabelos lisos tipo curiboca; rosto delicado e olhos negros e grandes, além de um sorriso lindo; porém, acanhado. Sua voz era forte e autoritária. Fosse-lhe dada uma dieta para perder uns quilinhos e um banho de loja, com certeza poderia vir a ser a cabrita mais bonita de Candeias.

O seu primeiro casamento foi um escândalo. Ouvi quando contou para a minha mãe em uma das constantes visitas que nos fazia, quando foi perguntada:

---Como foi o seu primeiro casamento comadre Maria?

---Foi terrive, cumá Luca! O diabo do home era um cavalo!

---Ele era bruto, comadre Maria?

---Não, cumá Luca, ele até era inducado!

---Uai, mas, então, não entendi!?

---Na verdade, ele num era bem um cavalo, era um jumento!

---Ah! Sei! Coitada!

---Cumá Luca, nóis casô num sábado as treis hora da tarde, em Bambui. Dispois, nóis foi tudo pra roça. Graças a Deus, meu padrasto fêis um festão pra nóis. A vizinhança da roça e muita gente da cidade tava lá. Veio um sanfonero de fora e o pagode foi à noite intera. 

----Ele era bonito comadre Maria? Especulou  minha mãe...

----Mais ó meno, era mei brancão, e eu qui sou misturada com preto ficou meio desiguar... Mais a festa cumá Luca, teve trem de cumê até chegá. Inda tinha muita gente e o capêta do home, --- eu num gosto nem de falá o nome dele--- Era Joziano, num sei onde arranjaro um diabo dum nome tão feio----. Mais o danado quiria ir deitá  sendo que a casa tava cheia de gente. E ainda tinha muita coisa pra cumê e bebê. E ele quereno cama, só falava naquilo, quando a torda do pagode ainda tava cheia.

---Ai fica ruim mesmo... Disse a minha mãe.

---- Uai é, num é cumá Luca?... Ai ele danô a incharcá na pinga. Incheu o rabo até de madrugada. Já tava com aquela vóis mole, chegava perto de mim e aquele trem foi me isquentano o sangue. 

O povo naquela aligria, já tinha um punhado de gente tonto. E o home, ai virô um demonho pá ir deitá antes do pagode acabá. Eu falei cum ele qui eu tinha inducação. Inquanto num fô todo mundo imbora, eu num deito. E ele danô a incharcá. Incheu o rabo até de madrugada. Dai virô aquele trem... Incheno o saco: " Vamo caça o nosso ninho?" E fazia aquela cara de tarado!

---- Coitada de você comadre Maria! 

---Quando o caminhão saiu levano o resto do povo, aí, cumá Luca, foi que a porca torceu o rabo. Tinha uns parente que ia posá lá em casa e eles tava tudo cunversano na cuzinha. Nóis foi deitá. Eu tava assim meia ressabiada e dispois era a primeira vêis que eu ia durmi com aquele demonho. Eu só casei quele de tanto o meu padrasto e a minha mãe falá que ele era trabaiadô, que tinha um pedaço de chão muito bão. 

---Que situação comadre Maria!.

---Não!!! iscuta lá, na hora que eu puis a água na baciinha pra lavá as parte, eu tava meia ressabiada e quando eu fui apaga a lamparina ele num dexô. E o demonho ficou oiano eu lavá minhas parte. Eu perdi o jeito de tudo. Cabei de lavá, inchuguei, assim meio atrapaiada, e fui pra cama, morreno de medo. E a lamparina acesa ele num dexô eu apaga. E daí o diabo veio pá riba de mim. Cumade do céu!!! Eu pensei que eu ia morrê. Paricia um trem mais doido do mundo. Rancô até sangue dimim. Daí, eu levantei dipressa, com cara de choro e fui pará na cuzinha...

---Comadre do céu!... Coitada!  Exclamou minha mãe... 

---Minha mãe me perguntô e eu num tinha corage de fala perto das pessoa. Ele ficô berrano lá do quarto: vorta aqui Maria! Que qui ocê viu sô!? 
Ora só! Que qui eu vi!??? Eu tinha visto o diabo! vistido de jumento! Mais eu num fui não. No outro dia, ele veio cum cunversa mole, macio, pidiu discurpa. Aí, eu tentei de novo, mais foi um sofrimento muito grande porque ele tinha me machucado! E ele quiria me machucá nôto lugá. Ai eu num dexei não. Foi quando eu falei: nem pensá! 

Que isso comadre Maria! Coitada! Exclamou de novo a minha mãe...

Ê cumá Luca, o trem foi feio. Aquilo é qui foi sofrimento! Tem base? Foi aí que eu falei: cê pode é caçá uma da ruaça porque eu num sô muié disso não. E falei memo, pode me mata, com ocê eu num moro. Minha mãe me xingô, meu padrasto me iscumungô, mas eu tomei meu jeito.

---E no segundo casamento, Comadre Maria, correu tudo bem no primeiro dia? – Perguntou minha mãe.

---Deu, cumá Luca! No sigundo, o Nedino já é mais carmo, é mais véio, mais fraco e num é igual a um jumento não!

---Credo, comadre Maria, deve ter sido duro para você aguentar isso não é?

---Duro!? Bota duro nisso cumá Luca... Bota duro nisso!

Armando Melo de Castro

Candeias MG casos e acasos.


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