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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

COM CIÚME DO SANTO


A história católica diz que São Benedito nasceu na Itália e era Capuchinho. No mosteiro onde morava, exerceu várias funções, entre elas, a de cozinheiro.

Ele era, extremamente, preocupado com os mais pobres. Muitos o procuravam no mosteiro buscando sua ajuda, haja vista a falta de alimentação que os acometia. Muitas vezes, levado pelo seu sentimento caritativo, tomava de alimentos do convento e os escondia, entre suas vestes, a fim de levá-los para matar a fome dos necessitados.
Conta-se que, numa dessas saídas, seu Superior lhe surpreendeu, perguntando-lhe: “O que levas debaixo do seu manto, irmão Benedito?” E o santo responde, tranquilamente: “São Rosas, meu senhor”! E abrindo o manto, de fato, estavam as mais belas rosas no lugar dos alimentos, tirando a dúvida do Superior.

E, assim, aconteceu o primeiro milagre de São Benedito que ficou denominado como o milagre das rosas.

Existem duas imagens que representam São Benedito: Na primeira, ele está com o menino Jesus em seus braços e, na segunda, com flores nas mãos, como marca do seu primeiro milagre.

O santo negro, conhecido por Santo Preto, conquistou o coração dos católicos e é muito popular. Comumente, a sua imagem é vista nas cozinhas e dispensas dos brasileiros. Muitos católicos gostam de simbolizar a sua presença, oferecendo-lhe o primeiro café da manhã. Ele é o protetor dos cozinheiros e cozinheiras.

Desde que me entendo por gente, existe, aqui, na cozinha da casa de minha mãe, uma diminuta imagem de São Benedito perto da qual está uma pequena xícara. É costume, pelas manhãs, preparar o café e servir o primeiro gole ao santo como forma de devoção ao protetor dos cozinheiros. Existem também aqueles que acreditam que a presença de São Benedito, em uma dispensa, faz com que nunca falte alimento naquele lar. Fé é fé. A fé pode parecer uma metáfora ou uma abstração. Bem dosada, ela serve de qualquer jeito. Desde que não pegue uma montanha em peso para removê-la ou que a sua obra não a faça morta. Mas, o pior é quando a fé se torna cega. A fé cega pertence aos que não a têm na sua essência. Trata-se, simplesmente, de uma crença religiosa. É a fé do egoísmo que se torna no espírito da coisa e por que não dizer que se torna em uma mercadoria que um dono de igreja, charlatão, rouba do seu fornecedor e o transforma em freguês?

A responsável pela cozinha, aqui de casa, e que presta serviços domésticos à minha mãe, se nega a colocar o cafezinho para o São Benedito alegando que não acredita nisso e se diz crente. Ora, se é crente e não acredita no que outras pessoas acreditam, é um direito seu, todavia, deixar de atender a uma solicitação da patroa por ser crente é mais uma das piadas que a gente ouve sobre crentes evangélicos. Eles se expõem ao ridículo, influenciados por esses pastores charlatães. Se a pessoa tem um conceito religioso, entretanto, trabalha para quem confessa outra religião, não há o que se discutir. Ademais, o pedido lhe foi feito porque, no misticismo católico, se diz que a tarefa deve ser executada pela pessoa que prepara o café da manhã e isso é feito por ela. Contudo, como essa questão específica tem por motivo um Santo é claro que o santinho de minha mãe não deixará que fique nenhum mal-estar por causa disso, haja vista ser São Benedito o Santo que atenua o preconceito, pois, sendo negro, filho de escravos, carrega uma criança branca no seu colo. Infelizmente, pessoas que se envolvem com religião, seja qual for, sem filosofia, sem ciência, sem teologia, acabam ficando escravos de si mesmo e se transformam em instrumento de manipulação de pastores e padres gananciosos, esfomeados por dinheiro. É uma pena que a ignorância da maioria dessas pessoas que vivem dentro de igrejas, além do necessário, tem fomentado a vaidade de uns RR Soares da vida que fazem o show da fé; a ambição de um Edir Macedo com o seu império; a ignorância de um Valdomiro Santiago, um verdadeiro camelô da fé (sem qualquer demérito aos camelôs, critico a atividade desse pulha) que transforma a ignorância em fé púnica; a imbecilidade desses padres, chamados carismáticos; a idiotice de um Padre Fábio de Melo e a exaltação de um Silas Marafaia, (querendo aparecer mais do que umbigo de vedete.)

Todavia, mudando de assunto, essa história do São Benedito me levou longe, bem no princípio da década de 50, quando fomos vizinhos de Dona Ester, já comentada, neste blog, quando morávamos na Rua Coronel João Afonso.

Após ter levado uma vida irregular sob os olhos da sociedade, Dona Ester se casou com o Sr. João de Paiva, o pedreiro Joãozinho, como era mais conhecido. Era um homem simples, cumpridor dos seus deveres. Tinha o hábito de tirar um dia, dentro de uma temporada, para mamar umas pingas. Ninguém sabia quando seria esse dia. Era sempre uma surpresa para toda a vizinhança e até mesmo para Dona Ester que começava falando e terminava chorando, quando o via naquele estado de embriaguês.

Joãozinho era o contraste de Dona Ester. Baixinho, careca, rosto miúdo e bastante branco. Olhos azuis, dentes quebrados, narigudo, orelha de abano, parecia um coelho. Barba rala e uma voz fanhosa e baixa. No seu dia-a-dia, era mais manso do que um pardal. Tratava bem a esposa, era respeitoso com ela e lhe entregava todo o dinheiro do trabalho. Até o pedaço de fumo era ela quem comprava para ele. Mas, se tomasse umas pingas, sua figura mudava completamente. Falava alto e o fanho da sua voz sumia. A porta de sua casa se transformava num picadeiro de circo. Ofendia tanto a pobre mulher, a ponto das pessoas sentirem pena dela. Ainda bem que isso acontecia de duas a três vezes por ano.

Na normalidade do cotidiano, Joãozinho chegava a sua casa, completamente, sóbrio, tomava o seu banho, jantava e assentava-se à porta da rua fazendo o seu cigarrinho de palha, onde sempre aparecia alguém para conversar.

Toda a vez que ouço falar de São Benedito, logo vem, na minha memória, a imagem de Joãozinho na porta de sua casa falando mal, em voz alta, de sua pobre mulher que se encontrava no interior da casa. Dona Ester era devota de São Benedito. Apesar de ter a cor parda, ela era neta de escravos e, talvez, por isso, se declarava devota de quase todos os santos negros, São Benedito, São Maurício, Santa Ifigênia, Nossa Senhora Aparecida, e outros. Vivia fazendo novenas e oferecendo promessas aos seus santos. Entretanto, o Santo pelo qual ela dava uma atenção maior era para São Benedito. Estava sempre exclamando: “Meu São Benedito”!!! E aquilo, na hora que o Joãozinho estivesse turbinado, seria uma afronta a sua pessoa, uma afronta moral que dava início à encrenca:

---Invém ocê de novo quesse diabo desse Santo Binidito, Muié? Eu já num te falei que num quero sabê desse nome aqui in casa? Mas, qui diabo, sô! Cadê os ôto santo preto qui ocê gosta? Purquê tem qui cê esse Binidito? Um santo quesse nome num fais milagre coisa ninhuma, sua vaca! Ocê puxa tanto o saco dele que dá até café pra ele, pois eu vô pô pinga pra ele, quero vê se ele fica tonto! Sua égua. Sua mula véia. Esse santo só fais ingrizia. Vê se arruma um santo mio pró cê ficá chamano. Quando cê berra o nome desse santo me dá vontade de te pô a mão. Vê lá se isso é nome de santo! Trem ruim. Isso é santo de figa. Se fosse um santo tão bão, num tinha dexado ocê passá fome, sua vaca! Ocê memo vive falano que passou fome. E onde qui tava esse santo negão que nunca te ajudô em nada.? Discarada! Safada das maió! Bisca ordinária! Cachorra sem dono! Quarqué cuisinha já vem: “ ai, meu São Binidito!!!” Eu sei, sua mula! Quando ocê fala o nome desse santo, ocê tá lembrando é do Jereba, aquele arriero safado, cachorro sem vergonha, isploradô de muié, freqüentadô de cabaré! Aquele trem vagabundo morreu, mais ocê continua tarada com ele. Se ocê sonha arto com ele eu te mato. Eu tô de oio no seu sono, sua mula! Agora, quem trata dô cê é eu, intão ocê é só minha e tem qui tirá esse santo da cabeça porque esse diabo desse santo é uma discurpa amarela. Sua tarada!, Vaca, mula, égua, cachorra... Eu ainda vô morrê de raiva. Sua mula! Eu tenho nojo de tudo que é Binidito. Eu vô pidi a Deus pra me mandá pus infernos pra eu incontra quesse traia desse Binidito, fazedô de arreio.
Tinha qui tê um santo quesse nome. Isso é coisa do diabo. Só pode sê!

Moral da história: Dona Ester teria sido amante de Benedito Arreieiro e o trazia vivo na sua memória e Joãzinho tirava três dias, no ano, para desabafar o seu ciúme sobre aquilo que, talvez, pudesse observar sobre o comportamento de sua mulher em relação ao seu passado.

É como dizia a Rachel de Queiroz: “Eu queria contar uma história gentil, mas, só deu miséria”.

Armando Melo de Castro
Candeiasmg casos e acasos
Candeias – Minas Gerais


Um comentário:

Celle disse...

Caro Armando, é sempre um prazer ler seus contos,prende-me atenção e leio até o fim.
Não conhecia a história de São Benedito, e sentí peninha da dona Ester! o que faz o ciume e a cachaça!!!