
Cenas da peça teatral
Matter Dolorosa, Lia Langsdoff, Gabriel Carlos, Armando Melo e Willlian
Ferreira,
Entre o
final da década de 50 e principio de 60 em Candeias existiu um grêmio teatral
amador que tinha o nome de “Grêmio Teatral Monsenhor Castro” idealizado pelos
amigos, Gabriel Carlos, João de Sousa Filho e Antônio Macêdo. ---- Neste mesmo
tempo, havia outro grupo, do Sebastião Quirino, cujas peças eram de sua
autoria. Antes, porém, bem antes, já teriam existido diversos grupos teatrais
que vinham desde os tempos do Sr. Bernardo Bonaccorsi e sua Esposa Dona Nica.
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O Grêmio
Teatral Monsenhor Castro quando apresentava uma peça tinha a renda convertida
para a Sociedade São Vicente de Paula; e posteriormente para as obras de
construção da nova Matriz. --- Os idealizadores do grêmio formavam a trupe
efetiva de atores. Porém a cada peça surgiam novos atores tendo em vista a
afinidade da pessoa com o papel a ser atuado.
Entre os
participantes das diversas peças levadas ao palco, podemos citar os seguintes
atores protagonistas e secundários, exceto figurantes: Gabriel Carlos, o
diretor, Antônio Macêdo, João de Sousa Filho, Lia Langsdorff, Maria Amélia de
Castro, Ivanilda Vilela, Claudete Freire, Willian Ferreira, Zé Delminda,
Cristovão Teixeira, Zé Mori, Wanderley Alvarenga, Edson Chagas, Armando Melo de
Castro, Antônio Sidney de Sousa (Titoco) Hilton Vilela, Darlene Alves, Luiz
Bonaccorsi Neto, Joãozinho Cassiano e muitos outros. --- Na peça Os “Transviados”
atuou num papel de destaque a professora Marli Pacheco, de Campo Belo, nesse
tempo residente em Candeias, esposa do amigo Alceu Pacheco. Foi uma atuação
brilhante.
Infelizmente
a maioria das peças assim como “A Escrava Isaura” “O Louco da Aldeia” “Os Transviados”
“Rosa do Adro” e outras não ficaram nenhum registro nem escrito e nem
fotográfico, lamentavelmente.
Tenho
muito bem guardados em minha memória até alguns trechos dos textos decorados em
todas as minhas participações. É uma boa lembrança que qualquer um que tenha
participado disso, com certeza, terá sentido uma saudade boa de sentir. Afinal,
o teatro é uma mentira e viver fora da nossa realidade é como uma viagem a um
mundo desconhecido. Principalmente no meu caso que só fiz papéis de bonzinho.
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Gabriel
Carlos era o diretor. E muito se orgulhava disso. Fazia sempre o papel central
da peça, ou seja, quase sempre o mau-caráter. Se alguém lhe perguntasse o seu
nome, ele dizia: Meu nome é Gabriel Carlos da Costa, mas eu não uso o Costa. E
depois Gabriel Carlos é o meu nome artístico...
De quando em vez, aparecia no ensaio meio turbinado de “João Marques” e dizia:
“Eu aqui não sou diretor, sou um lava-cachorro. Ninguém me respeita.” Mas os
goles nunca atrapalhavam os seus ensaios, apesar de deixa-lo demasiadamente
eufórico e falador.
Tinha ele
dois ternos bons que só eram vistos quando por ocasião de representar uma peça
teatral. Era um terno marrom e um azul. Ele sempre dava um jeito de usar os
dois ternos em dois atos. Dizia sempre que o terno marrom era de uma casimira
superior e que se lhe tinha custado uma nota preta. O outro, conseguido num
consórcio do Chiquinho Alfaiate, teria sido mais barato.
Naquele
tempo era obrigação de cada cidadão ter pelo menos um terno, ou seja, paletó,
calças e colete. Esse era o traje que as pessoas reservavam para quando fosse
ser enterrado. Hoje uma cultura dispensada.
Lembrando-me
da peça “A Ré Misteriosa” não me foge a memória a protagonista, amiga Lia
Langsdorff irmã do Jesus Langsdorff, uma moça muito bonita, excelente atriz e
inteligente como todo Langsdorff. Foi uma atuação brilhante dessa amiga que
logo se mudou para Goiás e eu nunca mais eu a vi. ---- E o Gabriel Carlos o
mau-caráter da peça, que indiscutivelmente entendia do assunto. O personagem de
Gabriel era assassinado e teria que cair no palco. E com isso foi a sua maior
preocupação, estar neste ato, com o terno azul.
--- Nas discussões sobre o vestuário, durante os preparativos da peça, era
infalível este comentário: “Ai eu estarei com o meu terno marrom”.
Um dia
ele me disse:
“Ninguém
nunca me viu com o meu terno marrom fora do palco. Ele é reservado,
exclusivamente, para o teatro.” E fazia questão de realçar:
“São poucas as pessoas que têm um terno igual àquele” dissera isso por
mais de uma vez para mim.
Parece que a sua adrenalina subia quando se via dentro daquele terno.
O fim da
vida de Gabriel foi dramático. Vitimado pelo câncer, faleceu antes de completar
sessenta anos. O final de sua vida foi marcado pela pobreza e apenas com a
ajuda dos parentes e amigos. Não teve uma aposentadoria, não tinha nenhum tipo
de recurso financeiro e, já velho e doente, não tinha mais forças para
trabalhar. Naquele tempo, o serviço social ainda deixava muito a desejar e não
era como nos dias atuais.
Estive
presente no seu sepultamento. Foi muito triste vê-lo morto e sendo enterrado
numa cova rasa. Eu que o vi morrer por duas vezes nas peças teatrais, agora não
era teatro... Agora, ele estava morto de verdade, um dos meus maiores amigos,
com quem eu tanto aprendi quando com ele trabalhei de pintor de paredes. Agora
morto, dentro de um caixão sem flores, vestido com o seu tão querido terno
marrom o qual estava perfeito no seu corpo, graças o emagrecimento que a doença
lhe proporcionou.
Conclui
naquele momento que o meu amigo, o meu grande amigo Gabriel Carlos, viera a
esse mundo, apenas buscar um caixão e aquele terno marrom.
Finalizando
o meu texto, fecho os meus olhos, concentro-me e busco na minha memória o meu
amigo Gabriel alegre, sorridente e bem vivo, falando do seu terno marrom.
Que Deus o tenha meu bom amigo!
Que Deus o tenha meu bom amigo!