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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A COBRA SUCURI


 Wanderley Carvalho, o Leley, é um dos meus grandes amigos que reside, hoje, em Brasília. De vez em quando, aparece aqui, na terrinha, com a intenção de matar a saudade e rever seus irmãos, Carmélio e Iveta, além de seu sobrinho, Aírton Cordeiro. Durante o tempo em que morou em Candeias, dedicou-se ao ramo comercial de bares. Era o tempo dos bons bares em Candeias. Foi proprietário do antigo Bar do Bóvio e, depois, foi para o sobrado do Levy. Dali, mudou-se para a cidade de São Sebastião do Paraíso, localizada no sul de Minas, próxima a Passos, onde adquiriu um bar/restaurante muito bem montado.

Eu era bem jovem e fui trabalhar com o Leley, nessa cidade, em que fiquei durante todo o ano de 1962. Foi um tempo bom. Sabe-se que um balcão é uma verdadeira escola. Como eu flutuava nesse tempo em busca de conhecimento da vida, acabei aprendendo muita coisa naquele ofício.
Éramos dois funcionários. Um atendia o balcão e o outro atendia o salão. O meu colega era o Caiana, meu grande amigo e que se tornou, posteriormente, motorista de caminhão vindo a falecer, em um trágico acidente, nas imediações da cidade de Arcos. Era filho do Gérson, funcionário da Ferrovia.

Para o serviço de carregação, Leley levou o Tiguinho, também, falecido. Indivíduo apalermado, extremamente simplório. Do tipo cabaceiro que busca e leva a cabaça dágua para o trabalhador rural. Aliás, Alcino do João Sidney, irmão do Mozar Sidney que era cafeicultor em Campos Altos havia levado o Tiguinho para esse tipo de trabalho e, por uma questão ínfima, ele abandonou o serviço, colocando o pé na estrada sem dizer nada para ninguém. Voltou para Candeias, seguindo a estrada de ferro e foram vários os dias nessa viagem, dormindo à beira do caminho e pedindo comida nas casas das turmas. Leley que acabou sabendo dessa sua viagem extravagante trazia Tiguinho sempre às vistas.

O Bar do Leley situava-se na entrada da cidade de São Sebastião do Paraíso, bem afastado do centro. Contudo, era o ponto predileto dos artistas que visitavam a cidade e da sociedade bem remunerada tendo em vista as boas instalações e a qualidade da comida feita com esmero pelas suas irmãs, Quinha e Iveta, com a participação de sua mãem Dona Maria. Conceituadas prendas na arte culinária.

As atribuições do Tiguinho seria transportar um engradado de bebida, buscar ou levar alguma coisa e fazer a faxina no final do expediente. No mais ficava por ali. Tornou-se conhecido dos fregueses e dado ao seu porte um tanto tolo, passou a fazer o papel de bobo da corte e tudo que lhe falava ele tinha apenas uma resposta: Ouáááááááááááá!!!!
O tempo cuidou-se de nos devolver a nossa amada Candeias. O contrato de aluguel entre o Leley e o dono do ponto terminou e este não quis renová-lo.
Novamente, em nossa terra, continuamos amigos e Caiana resolveu cumprir uma velha promessa então feita ao Tiguinho, por diversas vezes, durante a convivência em São Sebastião do Paraíso. Seria levá-lo à zona do meretrício e lhe proporcionar a companhia de uma mulher para que pudesse, então, deixar de ser donzelo, pois afinal, ele já tinha trinta e oito anos e ainda não havia lhe acontecido nada, sexualmente falando. Estava ainda na estaca zero. Foi tudo muito bem combinado. A mulher era uma mulata alta, alentada, mais para gorda. Cabelo enrolado. Rosto cumprido, lábios vermelhos, trajando um vestido esverdeado meio curto, mostrando umas pernas grossas, das quais Tiguinho não tirava os olhos. A ex-donzela, antes de seguir para a sua tarefa, pediu um trago de rabo-de-galo (pinga com vermute). Traçou aquilo, sem fazer careta, juntou Tiguinho pelo pescoço e seguiram para o quarto, após ter sido previamente informada, sobre a inexperiência sexual do imaculado, daquele a quem lhe incumbiria tirar-lhe a virgindade.

Ali, naquele comércio de prostituição, havia muitas pessoas e como o Tiguinho foi sempre muito conhecido pelo seu jeito de ser, a sua presença despertou, para os presentes, bastante atenção. Caiana, com aquele seu jeitão, dizia: eu trouxe o Tiguinho aqui para sangrar a “curuja” e eu, como fazia parte da comissão incumbida daquela desfloração, fiquei apostos para ver o resultado.

Tendo decorrido uns dez minutos, ouve-se um grito da mulher. Daí a pouco a porta se abre! E a mulher assustada diz:
---Isso é homem ou é uma sucuri?! Esse cara é aleijado, Caiana!!!
Corremos ao seu encontro e o pegamos tremendo, feito uma vara verde, dizendo:
---- Uai! Eu só comecei e ela já deu um grito!

Pois é, Tiguinho! Nós bem que tentamos ajudar você, mas, uma cobra sucuri mata só de susto.

Armando Melo de Castro
Candeias mg casos e acasos
Candeias –Minas Gerais

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